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segunda-feira, 5 de outubro de 2015

NA PAZ DE UM RANCHO


Apesar dos trancos que a vida lhe deu, traz um semblante tranquilo, olhar humilde e um sorriso sincero no rosto negro que contrasta com a moldura branca da barba e dos cabelos encarapinhados.
         Quando veio ao mundo, já nasceu livre, apesar de sua mãe ter dado à luz nos aposentos de uma antiga senzala.
         Não sabe sua idade certa, mas isto não é culpa sua e sim de quem extraviou os papéis, como diz.
         Muitas pipas de água, muitas lavouras carpidas, muita lenha cortada, muitas idas e vindas pela vizinhança, muitos passeios com a sinhá e a sinházinha, quando atrelava o tordilho gordo e marchador na aranha verde com o rodado branco. Lembra que se entretia com as sombras das sombrinhas das duas que se projetavam no chão a rodopiar, ao longo do trajeto.
         É dono de uma memória invejável, muita lucidez e ainda uma vitalidade física, talvez em consequência do bom apetite que dispõe.
Tonico, como era chamado no tempo de guri, agora transformara-se naquele ancião experiente, simpático, querido e carinhosamente tratado por tio Nico.
         Sua paixão de adolescente ainda mora com ele, no mesmo rancho que acolheu aquele casal cheio de amor e ali criaram e educaram meia dúzia de filhos.
         Como tantos, por este mundo de Deus, estão aposentados e moram só os dois, tendo como companhia, um cusco que late ferozmente quando algum estranho chega, ou amistoso abanando o rabo para os conhecidos. Um galo peito duplo, que além de anunciar a madrugada, cacareja junto às galinhas na hora que alguma põe.
         Dona Dita, sua eterna namorada, apesar de um pequeno problema no joelho, o que lhe faz portar um bastão, cultiva uma hortinha cercada de taquaras lascadas, cerca esta feita e frequentemente reparada pelo marido. Ali, misturam-se verduras, chás, pimenta, arruda, enfim, um rodízio conforme a época de cada planta.
         Tio Nico também não fica pra trás, tem uma lavourinha no costado da horta que dá gosto de ver. A enxada ainda corcoveia no vai e vem da capina, não dando alce à sujeira, naquelas mãos que muito tiraram o sustento da terra para a família.
         A energia elétrica ainda não chegou por lá, porém um “radinho de pilha” ressonga diariamente, principalmente à tardinha, quando gerveia com sua prenda em frente ao rancho.