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quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

O "TITI-TÁTI"

         E as horas eram arrastadas pelos ponteiros daquele relógio antigo que morava num prego na parede da sala, cujo pêndulo dançava no ritmo do tique-taque.
         E as crianças de outrora, com os olhos de “bulita” admiravam aquele pêndulo e acompanhavam com a cabeça para um lado e para o outro no mesmo compasso e o chamavam de “titi-táti”. Diziam a elas que o relógio tinha alma e ela é que embalava o pêndulo, daí então regalavam ainda mais os olhos.
         Durante a noite, mesmo solito na sala, o velho relógio continuava seu tranco e era quando mais se ouvia, de hora em hora, seu gongar quebrando o silêncio e as crianças de outrora sentiam medo de passar por lá.
         Os números, que na verdade eram letras (I-X-V) demarcando as horas, eram magras e elegantes. Usavam um traje preto impecável que as fazia sobressair, contrastando com o branco do mostrador. Os ponteiros dourados também eram magros e elegantes. O menor era mais preguiçoso.
         Eram companheiros do “titi-táti” um espelho emoldurado com madeira envernizada da mesma espécie da dele, um retrato oval e um porta-chapéus, também de madeira pintado de preto.
         Desde que foi pendurado lá, saiu somente uma vez para ir ao médico, mas o mal teve cura e logo voltou para a harmonia da sala e alegria dos companheiros de parede.
         E as salas de hoje não ouvem mais as gongadas. A nova geração do “titi-táti” é silenciosa e as crianças de agora, não param para balançar a cabeça à sua frente e sim curvando a espinha a teclá-lo freneticamente, pouco se importando se marca ou não as horas.