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quarta-feira, 29 de outubro de 2014

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

E ENFIM, CHEGA O DIA

Foto de Giancarlo M. de Moraes
      Quando o mês de outubro já deixava a estrada, e o novembro despontava na curva, as conversas sobre o Natal e Fim de Ano eram mais frequentes.
    Isto era um prenúncio de que as férias escolares também estavam próximas e a euforia recheada de ansiedade tomava conta da gurizada. Tanto os da cidade quanto os lá de fora.
      Aqui a gente se tornava bonzinho, mais obediente do que de costume, mais atencioso, mais cumpridor das tarefas. Passava mais tempo em volta dos livros.
    Os de lá, “ardilavam” brincadeiras e safadezas. Faziam dieta para os cuscos com o propósito de que ficassem leves ao correr as lebres e desentocar tatus.
    Pegavam mais seguido os cavalos que andavam de lombo meio duro e seriam sovados nas pescarias e nos passeios. Ah! Os caniços e as linhas também tinham retoques. Troca de anzóis rombudos, chumbadas, maçarocas...
  As forquilhas e os “corinhos” para bodoque tudo já pronto, esperavam as borrachas que os daqui levariam.
    A paisagem de lá parece que sabe quando a gente vai e muda a roupa ali pela primavera e se conserva cheirosa a nos esperar.
    O sol, nem se fala. A lua então... 
    Até os vagalumes acham que são estrelas.
    E enfim, o dia da chegada lá. Parece que nada mudou da última vez, porque com o alarido do encontro a gente não se prende aos detalhes, mas alguém notou o poste da luz.
      As férias a partir de agora, não terão mais aquelas noites de picumã com cheiro de querosene.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

LAÇO

Foto de Giancarlo M. de Moraes

Laço velho companheiro,
das minhas lidas eternas,
meu braço que te governa
até acharmos o jeito,
pra uma armada de respeito
sem pegar mão, cola ou perna.

Às vezes te entreveras
no terreiro co’as crianças,
te sustentando nas tranças
num galho de cinamomo,
onde o piá pega no sono
quando em ti se balança.

Enrodilhado te guardo,
ou te apresilho nos tentos,
onde aguardas o momento
pra ser usado na lida,
ou então ir pra avenida
dia Vinte de Setembro!

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

TOPETUDO

Foto própria

         - Desce já daí guri. Quantas “veis” preciso “dizê” que “pêsco” verde “fais” mal? “Óia” o que aconteceu com a “fia” da “cumadre”, não morreu porque não era hora!
       - Pois é, se empanturrou tanto que quase “entroncou”. Eu não sou esganado como ela e não faço mistura. Não precisa tá enchendo o saco.
         - Não me "arresponde" e desce já, ou preciso “apanhá u’a” vara?
         De lombo duro o piá foi descendo lentamente e sorrateiro guardava no bolso algumas frutas inchadas.
      - Vai “vê” se tem água no cocho dos porco e depois apanha “u’a” vassoura pra “barrê” o forno e vai “cortá” “azunha” que já tá igual um tatu. E por “falá” em tatu, não me vá pra escola com o nariz sujo.
         - Tá, e o que mais?
         - Não me "arresponde". Será que.... “Óia”! “Teusirmão” mais “véio” nunca “foru” maroto. Te ajeita senão...
         - Tá bem, já to cansado de ouvir isso.
         - Não me "arresponde" tá cansado e não aprende? “Óia” a vara!
    - Tá aí a diferença minha “fia”, resmungou a vó que debulhava milho. “Co’s” mais moço não havia conversa, a vara pegava logo.Tem que dá mimo mas tem que “sê” mais enérgica. O bate boca só deixa o miúdo cada “veis” mais topetudo.
         - Ah! Mamãe, não venha “querê” “ensiná” o padre a “rezá” missa.
      - Tá bem, depois não adianta “chorá” o leite derramado. To falando porque criei e eduquei tu e teus oito irmão e nunca passei vergonha por vocêis. Também nunca “iscundi” nada do teu pai e as varadas que “levaro” foi um santo remédio. E não me "arresponde"!
         - Esses “véio”...!
         - Tu já “corto” “azunha”?
         Mastigando os pêssegos o guri gritou de longe:
         - Ainda não tive tempo, será que tu não entende?
         - Não me "arresponde", “óia” a vara!

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

A CARTA


         Cai a noite. Lá no fundo do campo, um rancho deixa sair pelas frestas a luz de um lampião que na cabeceira da cama de uma prenda alumia as páginas da carta que o namorado escreveu lá do quartel da cidade.
        (Minha “princeza inesquesivel oji pegu” na pena...)
         O papel perfumado ameniza o cheiro da fumaça. Os olhos vão até o fim da linha e voltam com ansiedade devorando as palavras enquanto o coração acelera o compasso.
         É a primeira carta desde que ele foi. Pouco romantismo e muitas “milicadas”. Novidades sobre a nova vida, mas mesmo assim ela vai saboreando as palavras. Fecha os olhos e imagina seu bem-amado teso dentro de uma farda verde-oliva.
         As horas vão passando puxadas pelo canto de um grilo e a prenda volta mais uma vez ao início da carta. Lê e relê, acaricia o papel e na sua cabeça vai preparando a resposta.
         Amanhã, quando o mano for na venda vai pedir que traga papel e envelope para escrever ao recruta, conforme seu pai chama o rapaz (o que ela não aprova).
         O sono não chega e mais uma passada de olhos na carta.
        O grilo silenciou seu canto e o lampião vai diminuindo a luminosidade por falta de querosene e a luz mal e mal chega até as frestas.
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         Agora ela dorme com a carta sobre o rosto e o lampião fumega queimando o pavio.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

FIGURAS NO CÉU

      
        Depois do almoço, a gurizada foi sestear no assoalho da carreta à sombra do tarumã.
        As nuvens brancas povoavam o céu azul, qual um rebanho de ovelhas. Aos olhos dos guris elas iam formando figuras conforme o vento moldava. Cavalos, leões, gatos, coelhos, velhos, papai noel, patos, árvores, ursos e ovelhas, é claro, além do que a imaginação de cada um identificava.
        Dentre os “sesteadores” havia um rabugento chato, que não concordava com o achado dos outros e forçava que concordassem com o que ele descobria. Se um visualizava uma cabeça de leão, ele teimava que era uma cabeça de macaco.
        A brincadeira conjunta terminou para ele quando foi expulso da carreta para que fosse sestear em outra sombra e que talvez de lá o ângulo de visão fizesse com que as figuras teriam a mesma forma que o pessoal da carreta via.
        A turma daqui continuava a descobrir figuras e comentar em voz alta, até que combinaram ficar em silêncio para dar um gelo nele enquanto lá ia descobrindo e explicando o que via, porém sendo ignorado pelos demais.
        O silêncio surtiu efeito. Passado um tempo, o rabugento foi se chegando novamente para a carreta pedindo para continuar na brincadeira.
        Depois de uns “sins” e uns “nãos” ele voltou a deitar no assoalho no lugar de onde fora expulso. Permaneceu calado.
        Um dos guris piscou o olho para os demais e disse:
        - Agora vamos deixar o rabugento descobrir uma figura?
        Houve concorde geral.
        Olhos “campeando” o céu, o rabugento num salto disse:
        - Olha ali, perto daquela nuvem bem grossa a cabeça de um burro!
      - Ah, ah, ah, ah! Até que enfim temos que concordar contigo. É o teu focinho sem “tirá” nem “botá”. Ah, ah, ah, ah!
        Ele apeou da carreta e deu uma rajada de esterco seco de ovelha nos outros, terminando com a sesteada.