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sábado, 27 de setembro de 2014

A VELHA E A GAVETA

        Numa tarde chuvosa, aquela senhora cuja idade se refletia no “cocó” do cabelo, tirou para por ordem nas gavetas, coisa que há muito já vinha planejando, mas não achava tempo. Muita quinquilharia acumulada.
        Óculos quase escapando da ponta do nariz, o gato no colo, a cocota no ombro e o cachorrinho mimoso fazendo o chinelo de travesseiro eram seus companheiros. O velho roncava numa cadeira preguiçosa. Os cachorros dele ficavam do lado de fora.
        Ela tirou a primeira gaveta do lugar e despejou tudo sobre a mesa. Começou a separar o útil do ocioso, ou melhor, catar, catar, ciscar...
        Espantou o gato do colo para que a gaveta ali ficasse, pois devolvia para ela os objetos selecionados como aproveitáveis. O gato quando pulou para o chão, deu um tapa no cachorrinho e foi para o colo do velho que continuou roncando.
        Lá fora os pintos abrigavam-se contra a casa, retesados como soldados na posição de sentido. Já por sua vez os patos, ou espanavam as penas ou chafurdavam as poças d’água.
         E aquela senhora de “cocó” no cabelo, continuava a ciscar na gaveta que ia enchendo de novo. Instintivamente assobiava notas sem formar uma música.
        O velho roncava, o gato no seu colo ronronava, o cachorrinho mudou a posição, agora já ocupando somente um chinelo e a cocota tentava imitar o assobio da velha.
        E a gaveta engolindo novamente a quinquilharia.
        Uma trovoada acordou o velho que atirou longe o gato e reclamou que já estava na hora do café, que apetecia bolo frito.
        A velha continuou ciscando e a gaveta enchendo.
      Agora a cocota subiu do ombro para o “cocó” do cabelo da velha e começou a catá-la e puxar com o bico a alça dos óculos. O gato tentava pular novamente no colo do velho que o afastava com as costas da mão.
        Lá fora a chuva continuava, só que mais forte. Uma goteira iniciou a cadência sobre a cômoda, fazendo que o velho levantasse, a mando da velha, para colocar uma bacia aparando a água.
        Voltou para a cadeira preguiçosa e continuava reclamando o café com bolo frito.
        A goteira enchia a bacia e a velha de “cocó” no cabelo enchia a gaveta.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

O CULEPE DO GURI

        
    O sol já havia levado a sombra do mato para o outro lado da estrada. O dia muito perto de sumir pelo horizonte e a picada ainda por passar.
            Pelo pescoço do petiço o suor escorria, o mesmo acontecendo por debaixo do arreio e deslizando pelas costelas.
            Havia fama de que ali  “às Ave Maria” aconteciam fatos estranhos no interior da picada. Estórias e mais estórias eram contadas, inventadas e renovadas e aumentadas.
            O guri por mais que tocasse o petiço, não atravessaria a tempo claro por aquele “túnel” feito a facões e foices na necessidade de um caminho mais curto.
            Ele se distraiu lá pelo bolicho onde dois tauras se desafiavam no jogo de bocha e quando alçou a perna para levar as compras pra casa se deparou com o sol já quase tocando a crista da coxilha ao longe.
            Sentiu a garganta ressecar, um sufoco no peito e chamou no rebenque o petiço para tirar de suas patas o atraso da hora. O cusco corria a uns dois metros à frente e com rápidas paradinhas olhava para trás.
            Após a curva da estrada, no lusco-fusco, saltou aos olhos do guri a picada com sua boca aberta e a goela comprida e escura.
            Andou um pouco com os olhos fechados. Quando abriu, não viu o cusco e o petiço aguçava as orelhas.
            Pensou voltar e olhando para trás avistou o cusco aguando uma macega. Assobiou pra ele chamando pelo nome.
            Um pé de vento vindo por suas costas provocou estalos no mato e levou seu chapéu rolando picada adentro como se estivesse sendo puxado por alguém. Seus cabelos arrepiaram.
            O guri meteu a mão no bolso segurando o canivete, quadrou um pouco o corpo no arreio, atiçou o cusco, cutucou com o garrão o petiço, fechou os olhos e num galope, sem chapéu seguiu.
            Na sua imaginação, algum fantasma estaria experimentando seu chapéu e ele ia sendo engolido aos poucos pela picada, de onde talvez jamais saísse.
              Por vez tirava a mão do bolso para conferir se a mala com as compras estava na garupa e mantendo os olhos cerrados, assobiava para o cusco.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

APARIÇÃO


O dia foi meio turvo,
a noite chegou num breu,
e recolhido ao meu eu,
campeava o sono num catre.
De repente o cusco late,
em direção a cancela.
Espiei pela janela
e avistei com espanto,
uma mulher toda de branco,
trazendo acesa uma vela.

Senti um arrepio no corpo
e ressecou minha garganta.
Representou-me uma santa,
passando para o galpão
e daquela vela na mão,
que tinha um pavio comprido,
caíam pingos coloridos,
que reluziam no chão,
formando um longo cordão,
junto a cauda do vestido.

Levitou por um momento,
ficando lá, sobre o forno
e veio um perfume morno,
como se fosse um incenso.
Numa rajada de vento,
sumiu pelo arvoredo.
Juro que não senti medo,
pois eu tenho devoção,
iniciei uma oração,
assim encruzando os dedos.

Rezei três Ave Marias,
um Pai Nosso e um Glória ao Pai.
A tal mulher não vi mais,
porém continuei rezando.
Depois fiquei meditando
e não quis ir ver lá fora.
Me pergunto até agora,
ainda meio bisonho,
será que eu tive um sonho,
ou foi mesmo Nossa Senhora?

domingo, 7 de setembro de 2014

NO TEMPO QUE O TEMPO DAVA TEMPO


         Há muito tempo, um avô falava para o neto sobre aquele tempo em que todos tinham tempo.
         Mesmo durante as revoluções, achavam tempo para tomar um mate, falar do tempo e dar um tempo para avançar ou recuar.
         Tempo que o fio de bigode era documento.
         Tempo que fez com que sua melena ficasse branca e rala e ele teve tempo para notar.
         Tempo que teve tempo para amar a prenda, para fazer muitos filhos, (pois era um tempo em que se podia ter muitos filhos).
         Tempo para cuidar dos negócios e ainda tempo para domar os cavalos.
         Assim, aquele avô passou um bom tempo falando com o neto, aproveitando que o neto ainda tinha tempo para ouvir sua prosa relatando como era naquele tempo.
         Passado algum tempo, o tempo levou o avô e depois de um tempo, o neto pediu ao pai para que contasse alguma coisa sobre o tempo em que foi guri, porém o a resposta do pai foi de que não dispunha de tempo.
         Com o tempo, o neto teve um filho e o seu tempo não deu tempo para repassar aquelas histórias que há muito tempo seu avô contava sobre o tempo dele.
         Hoje, o filho do neto nada sabe sobre o tempo de seus antepassados e passa o tempo todo reclamando do tempo que o computador demora para lhe dar a resposta.
         O jeito é termos paciência e aguardar nossa hora chegar, pois esta chegará mesmo que não tenhamos tempo.
         Aquele tempo se foi com o tempo.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

CLARO QUE EXISTEM CERTAS HORAS...

         Num fim de tarde após ter vindo uma chuva, o velho com os braços encruzados sobre a cabeça do moirão e com o pé no primeiro fio da cerca, contemplava a paisagem até onde a vista lhe permitia.
         O vento de frente forçava tirar-lhe o chapéu, cujo barbicacho firmava-se naquele queixo onde era cultivado um cavanhaque tordilho.
         Um pouco à distância e a esquerda do capão de eucaliptos, fumegava o cano do fogão no rancho do vizinho mais próximo, seu compadre, amigo desde guri, com quem repartiu muitas façanhas pelas andanças da vida.
         Conforme o vento foi ficando mais calmo, as formigas de asa “decolavam” no potreiro e num frenesi iam pegando altura que o velho até brincou com ele mesmo de que elas iriam “aterrissar” no arco-íris. Isto as que se escapassem do bico das galinhas e dos pássaros.
         Flechando em direção ao açude, meia dúzia de patagônias rasgavam o espaço e já voltando de lá, um socó batia lentamente suas asas satisfeito como quem já tivesse jantado.
         No cinamomo da frente, um cardeal e um canário da terra encerravam suas jornadas cantando melodiosamente. 
           No palanque alto da porteira, o joão-de-barro fazia um alarde sobre o teto de sua casa dançando para a parceira, também se despedindo do dia e prenunciando bom tempo para amanhã.
         O gado manso ia chegando para perto das casas. Iniciava-se o ritual de prender os terneiros.
         A porcada grunhia enquanto um peão atrapalhado pela criação no terreiro carregava dois latões com farelo. Alguns frangos de rinha voavam para beliscar nos latões, na esperança de encher o papo.
         O velho já tinha descruzado os braços, mas o pé ainda continuava sobre o arame. Agora com as mãos encruzadas sobre a cabeça do moirão aproveitava para um cochicho com o Patrão Maior num agradecimento humilde e bem campeiro.
         Enquanto a paisagem foi tornando-se sombria e seus pensamentos perdiam-se pelas covancas da memória, permanecia ali até que ouviu:
           - O MATE TÁ PRONTO, VEM!