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sábado, 31 de maio de 2014

FICANDO NO TEMPO...


         O cabo de taquara, polido pelas mãos ásperas, era lisinho e brilhoso como se envernizado com o melhor produto do gênero.
         Nem lembrava ele, quantas e quantas vezes a “siadona” mandou lhe amarrar feixes de carqueja, guanxuma e ramos de vassoura de capoeira, para uma limpeza no terreiro e no forno.
         Passava grande parte do seu tempo escorado na parede da casa, ora lagarteando, ora na sombra fria e até mesmo à noite, fechando os olhos com medo dos relâmpagos.
         Dava a impressão que estava de cabeça para baixo, visto a ramagem lembrar uma cabeleira despenteada, ou um bigodão repuxado mais para um lado do que para o outro. Se ficasse de ponta trazia azar, porém também trazia sorte com a “sempatia” de mandar a visita embora, segundo a crença dos antigos.
         Quando lhe davam uma folga de ser vassoura, era requisitado pelo piá, servindo de parelheiro, o que lhe causava o desgaste em uma das pontas. Outras vezes foi arma para matar papa-pinto ou cobra verde, que se achegavam nas casas, sorrateiras a lamber os beiços.
         Também servia de par para a prendinha, nos bailes fantasiados pela imaginação fértil e inocente, rodopiando no rodar de um vestido enfeitado de remendos.
         Com o modernismo chegando no rancho, ele está ficando de lado dando lugar a novos engenhos que o levarão a virar cavaco para principiar fogo, ou apodrecer no monturo.

sábado, 24 de maio de 2014

UM LIGEIRO VOO AO PASSADO

            Já bem no fim da tarde chuvosa e fria, emoldurado pela janela do oitão do meu rancho, contemplava a paisagem onde se destacava a alguns metros adiante, a casa branca da fazenda que meu pai capatazeou por muitos anos, até ser beneficiado com a aposentadoria.
         Com os cotovelos apoiados na soleira da janela e o rosto entre as mãos, o pensamento foi criando asas e voou lá para a infância.
         Não sei por que me veio à lembrança, da vez que acordei pela manhã e ouvi minha mãe, ainda deitada no quarto dela, dizer ao meu pai que ontem tinha sido o meu aniversário e que nem ela havia lembrado.
         Ainda olhando para a casa branca, no lusco-fusco, recordei da grande festa de aniversário do filho do ex-patrão do pai, para a qual, na época, só fomos convidados com a finalidade de ajudar nos preparativos. Foi realmente de grande pompa. Todos os anos era a mesma coisa.
         Não sentia ciúmes e nem inveja, pois eu tinha certeza de que era mais feliz do que ele e o que me confortava era o fato de que o meu petiço nunca perdeu carreira para o dele.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

SONETO QUEBRADO

Rancho, arvoredo, terreiro,
cachorro, porco, galinha,
poço, água fresca, sombra,
mangueira, pealo, castração.

Campo, gado, ovelhas,
cerca, palanque, arame,
estrada, boi, carreta,
macega, lebre, perdiz.

Cavalo, pelego, xergão,
doma, bocal, rebenque,
bombacha, bota, espora...

Fogo, chimarrão, viola,
churrasco, carreteiro, canha,
Prenda, catre, cobertor...

segunda-feira, 19 de maio de 2014

MODERNISMO VERBAL

         De tempos em tempos, algumas palavras aparecem no vocabulário diário tornando-se moda, sendo empregadas com muita frequência. Certas pessoas ao pronunciá-las, transmitem uma impressão de “status”, modernismo e sabedoria.
         Pois numa cidadezinha do interior, a qual adotei como de naturalidade, apareceu a não menos conhecida palavra “polêmica”. Era o xodó do palavreado da maioria dos habitantes. Qualquer assunto que vinha a tona, lá estava sendo empregada a “polêmica”. Cito os exemplos:
         - Será que vai ter carnaval de rua este ano?
         - Pois olha, ta uma “polêmica”.
         - O Fulano ganhará a eleição?
         - Pois é, anda rolando por aí uma “polêmica” no sentido de que...
         E assim a cidadezinha ia no seu dia a dia e o termo cada vez mais usado, inclusive até mal empregado. O importante era introduzir a “polêmica” no assunto.
         Mas como em quase tudo que se fala e que se ouve, tem gente que talvez por deficiência auditiva ou por ser mal sovado da língua, ou então por ter pouco contato, ou até nenhum com um dicionário, às vezes nos presenteia com certas pérolas, tal qual esta que ouvi.
         Perguntei a um parceiro sobre o resultado de uma carreira de cavalos que era muito esperada e os palpites bem divididos e o índio velho de pronto me respondeu:
         - Báh tiê! ta uma “polenta” sobre o julgamento. Até agora não se sabe nada sobre o resultado!

quinta-feira, 1 de maio de 2014

MARCAS DO TEMPO

     A morada era um tanto mais velha que o dono. A casa de pedra ainda resistia às açoitadas do tempo, o dono já nem tanto, mas ia levando entre chás e comprimidos.
      O velho não usava mais esporas e se apoiava num bastão. O galpão tinha escoras e suas paredes perderam as janelas, enquanto as roupas do velho ganharam remendos. O velho usava chapéu, porém da quincha do galpão restavam alguns fiapos de capim santa-fé.
       Na casa só não caducavam as pessoas que permaneciam penduradas nas molduras dos retratos amarelados tal o bigode do velho, tisnado pela fumaça do palheiro.
      A manivela do poço aposentou-se, dando o lugar para uma bomba manual que a ferrugem a cada dia ameaçava seu fim. A água continuava fresca e cristalina, regando a cambona, a qual o braço do velho mal podia segurar e a mão trêmula enchia o mate, companheiro desde que começou trocar a voz.
     Do arvoredo, apenas algumas laranjeiras que ainda teimavam em dar frutas, no entanto a faca do velho não as descascava mais.
    Nos esteios do alpendre apenas pregos enferrujados lembravam o lugar das folhagens robustas que pendiam suas tranças, onde muitos colibris penduravam seus ninhos e permaneciam de sentinelas na guarda de minúsculos ovos.
       A porteira foi aos poucos sendo roída pelas intempéries e a cárie broqueando os dentes do velho, escapando apenas as duas presas de ouro.
        O destino do velho foi de ficar bem velho e  assim  continua  num  túmulo  que  o tempo vai esfarelando, lentamente, onde a cruz de madeira com seu nome, já morreu.