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terça-feira, 29 de abril de 2014

É CEDO

É cedo! Tome mais um mate
que ainda tem água na cambona,
pois a saudade é gaviona,
quando estamos à distância,
deixando a gente na ânsia,
ela vai roendo de manso,
por isto agora em meu rancho,
voltamos a ser criança.

Vamos falar das caçadas
de bodoque e “aripucas”,
lembrar também da garupa
da petiça que era uma mola,
no caminho da escola,
troteando com nós em cima,
relembrar Dona Catarina
que poliu nossa cachola.

Vamos falar do açude
que hoje a seca castiga,
dos mergulhos de barriga,
e os olhos avermelhados,
lembrar dos peixes engasgados,
em nossas linhas de espera,
das “vergamotas” na tapera
dos marimbondos safados.

Vamos falar das gurias,
dos namoros em segredo,
relembrar nossos brinquedos,
feitos de lata e carretel,
da mangueira e o redondel,
do gado de sabugo e osso,
das arruaças e retoço,
com os guris do seu Manoel.
 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
 É cedo! Tome mais um mate!

quarta-feira, 23 de abril de 2014

NOSSO ZAINO



Foto de Giancarlo Marques de Moraes

Da Cabanha Infinito,
é a sua procedência,
e foi pra nossa querência,
aos quatro anos de idade,
demonstrando qualidade,
boa doma e mansidão,
conquistando o coração,
da família na cidade.

Na Estância do Minuano,
por onze anos ficou,
se machucou, correu, depois laçou,
por mérito do Paulo Chico,
a quem agradecido fico,
juntando a nós o Paulinho,
o Giancarlo e o Maninho,
na recuperação do nanico.

Muita amizade fizemos,
por conta deste animal,
aprendi fazer buçal,
comprei chapéu, bota e espora,
desfilei pela avenida afora,
com estampa de caudilho,
compartilhando com os filhos,
com a esposa, os netos e as noras.

Agora o zaino foi,
para os pagos de Cachoeira
e nossa família inteira,
deveras ficou contente,
pois quem comprou é boa gente
e nosso amigo do peito,
profissional que respeito,
veterinário, parceiro e consciente.

Volta o cavalo pra o campo,
pra correr com liberdade,
sei que teremos saudade,
do Gajá do Infinito,
que vai pra um lugar bendito,
de gente muito especial,
magnífico casal,
a Betina e o Paulo Chico!

quinta-feira, 17 de abril de 2014

UMA CARTINHA PRA TI

Na última folha do caderno,
eu rabisquei em segredo,
assim, com um certo medo,
da enérgica professora,
uma cartinha pra ti.
Quis fazer a letra bonita,
mas tomado de emoção,
mal dominava a mão,
até que fiz a escrita.

Não sabia o que escrever,
escrevia e apagava
e a palavra, “gostava”,
foi a que mais escrevi
e a que menos apaguei.
Eu trocava tu, por ti,
também escrevia você,
gastei todo o abc,
depois li e reli.

No outro lado da folha,
um coração e uma flor,
escrevi meu amor,
dobrando aquela cartinha
e com os olhos fechados,
dei um beijinho no meio,
pra te entregar no recreio,
se te encontrasse sozinha.

Ao te ver longe das outras,
o ar quase me faltava,
minha perna cambaleava,
meu coração disparou,
retirei então do bolso
e caminhei pra o teu lado,
fiquei todo encabulado
e a coragem me faltou.

Nunca ficaste sabendo
e não contei pra ninguém,
ainda te quero bem,
muito mais do que amiga.
A cartinha ainda tenho,
guardada a sete chaves,
talvez um dia, quem sabe,
te entregar eu consiga.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

APENAS A SAUDADE DO PATRÃO



foto de Giancarlo Marques de Moraes 
Por velho traste é tratado agora o peão,
que com suas mãos fez a estância prosperar,
não sabem estes que a herança recebida,
foi para ele mais que a vida, mais que o lar.

O patrãozinho que cavalgou nos seus joelhos,
virou a cabeça renegando seu passado,
por um cambicho escolada em maus conselhos
e que aos poucos vai pelando os seus trocados.

Triste e solito o velho peão remói a mágoa,
vendo a estância sem remédio pra curar,
onde o orgulho, a vaidade e o desperdício,
é uma tropa magra que se importam em criar.

Os seus arreios emalou a muito tempo,
pressentindo que um dia mandarão,
que ele cruze a porteira para sempre,
levando apenas a saudade do patrão.

E o rancho, presente do seu patrão,
com duas braças estendidas ao redor,
cedo ou tarde vai ter que virar tapera,
pouco importando se ele regou com o seu suor.

Apesar da experiência em toda a lida
e a saúde pra enfrentar novas andanças,
com sua idade avançada embretará,
nos corredores e porteiras "doutr' estâncias"!

sexta-feira, 4 de abril de 2014

NOITE DE LUA E VAGALUMES

          Eu não ia solito, a lua andava comigo reluzindo na prata dos aperos. Quando em vez uma coruja ou um quero-quero me traziam de volta ao presente, dando conta de que andejava numa noite sulina, no embalo sonoro das quatro patas do pingo.
         Não levava um rumo certo, apenas encilhei e saí ao léu com uma ânsia de encher os olhos de campo e céu.
         A paisagem que tanto deu guarida às minhas fantasias na infância, mais uma vez me abraçava naquela noite/dia de lua e vagalumes.
         Vagueava absorto naquele encanto campeiro, agora já sem o medinho que sentia nas noites de piá, quando ia na casa de um vizinho “pra mode” levar algum recado, pedir uma cevadura d’erva ou uma xícara de sal em troca de outra coisa, ou até mesmo pra “lorotear” com a gurizada e depois um pouso, espichando a prosa em cochichos até a madrugada.
         No céu as estrelas balizavam o meu caminho sem destino, pois ora eu caminhava em direção a uma, ora em direção a outra.
      Assim andei sem ter noção do tempo, até que atei as rédeas deixando que o instinto do cavalo nos levasse de volta ao rancho.