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sexta-feira, 29 de novembro de 2013

A CHUVA, EU E O GRILO


As nuvens chegaram gordas,
bem antes do meio dia,
a moura virou a anca,
contra a chuva que caía.
O gado buscou abrigo,
entre as árvores do capão,
enquanto o campo encharcava,
naquele dia chorão.

 Eu escutava a voz do vento,
o chiado da chaleira,
o lamento da panela,
no “tióc, tióc” da goteira,
um galo abrindo o peito,
já “em riba” do poleiro,
uma zebua berrando
e a resposta do terneiro.

“Bombiei d’uma” janela,
vendo a cortina de chuva,
que de lambuja lavava,
as orelhas da timbuava.
O lusco-fusco chegou,
bem antes da sua hora,
trazendo a noite a cabresto,
pra este rancho aqui fora.

Enroscado nas cobertas,
apaguei o lampião
e um grilo buscando amor,
se rasgou numa canção.
Solitário e sem sono,
vi quando o dia amanheceu,
“loco d’inveja” do grilo,
que foi mais feliz que eu.




segunda-feira, 25 de novembro de 2013

TAFONA

  
Na antiga estrada,
jaz abandonada,
a velha tafona.
Paredes rachadas,
quase destelhada
e a "cunheira" cilhona.

Lembro que tinha
boa farinha,
de trigo, de milho
e uma petiça pitoca,
que trazia a mandioca,
para virar polvilho.

Eu achava engraçado,
o pessoal matizado
malhado com o pó
e redondas pedras,
onde o grão se quebra,
chamadas de mó.

sábado, 23 de novembro de 2013

ACIDENTE CAMPEIRO


    Um rapazito foi passar uns dias com o tio que era capataz de uma fazenda. Beirando seus dezesseis anos, era meio afoito pra certas lidas.
     Pois bem, num determinado fim de semana, o tio fora dar uma mão pra um vizinho e o sobrinho foi junto, já que de antemão tinha sido convidado.
   Encilharam e foram. Ele numa potranca na doma. Uma rosilha malacara, pra lá de buena, ainda com certas baldas, sendo uma delas de assustar-se por nada.
   Na vizinhança, todos já sabiam que o sobrinho era meio que metido a sabido, porém não era chato. Coisa de adolescente pachola.
  Chegaram na casa do vizinho bem cedito, onde um outro vizinho estava moendo cana pra fazer melado.
   Depois dos boleia a perna! Chegue pra diante! Foram convidados pra tomar um café antes de saírem pro campo. O rapazito agradeceu e se chegou pra o lado do engenho e “se atracou” a beber “guarapa” (caldo da cana moída). Bebeu muitos canecos, muitos!
  Quando os demais voltaram do café, alçaram a perna e com a cachorrada de atrás, partiram pra o que devia ser feito. Ele montou, pacholeou e seguiu também.
   A expectativa da rapaziada era ver a atuação do novato, de apreciar o desempenho do “sobrinho”, como foi apelidado.
   A potranca se passarinhava a toda hora, pisava na ponta dos cascos num trotezito ligeiro, não passando ao galope porque o “sobrinho” sujeitava o bocal que espumava na boca da rosilha.
   Mas com o trote, a “guarapa” começou a galopar nas tripas do “sobrinho”, causando um barulho como se dentro da barriga estava acontecendo uma corrida de Fórmula 1. No começo tudo bem, mas a coisa foi apertando, apertando e a bunda já não se ajeitava direito no basto. Quieto ele seguia apertando a rosca o mais não poder.
    Na primeira porteira que surgiu, voluntariou-se pra abrir, já com a intenção de aliviar a buchada, pois não aguentava mais nem respirar.
   Boleou a perna, abriu a porteira e o pessoal passou. Disfarçando voltar pra fechar, esgueirou-se por entre as macegas com a rosilha no cabresto, baixou a bombacha e mandou pra fora a “guarapeira” que desceu roncando.
   Tudo estaria normal, não fosse a potranca se assustar e sentar no buçal, fazendo com que ele desequilibrasse e caísse sentado pra trás, em cima do que tinha feito. Foi a farra do resto da turma que já antevira o efeito da “guarapada” que roncava no bucho dele.
   Em meio as risadas dos demais, ele saiu com a rosilha no cabresto e maneado na bombacha “enguarapada” na direção dum açudezinho, onde “relampiando” a bunda branca, deixou a água poluída.
    Pela mesma porteira voltou rumo a casa cabresteando a malacara.
  Quando à tardinha, o tio retornou da lida, nem rastro do rapazinho. Tinha se mandado a pezito no más pra querência donde viera.

sábado, 16 de novembro de 2013

ENCOLHENDO A CUIA




Venho sufocado com a carestia
neste dia a dia que Deus me reserva
passo no bolicho bem desanimado
e inconformado com o preço da erva
já deixei do pito pra bem do “polmão”
mas com o chimarrão não dá pra “pará”
vou cevar o mate em cuia pequena
e chorar as penas do jeito que dá

“Para disfarçar um pouco o calote
enfeitam o pacote com brilho e brasão
e botam pra dentro tanta porcaria
baita judiaria pra o pobre do peão”

É muita tristeza para um gaúcho
em privar o bucho dum mate espumoso
e ter de passar por este sacrifício  
sem saciar o vício é igual sarnoso
que saudade sinto quando enchia a lata
da erva barata na venda do João
e uma cuia “véia” de botar inveja
dessas que caleja a concha da mão

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

CASEIREANDO

Um vento frio entrou pela fresta do galpão acordando o rapazinho. Além de ter dormido mal naquela noite, devido a umas histórias de assombro que se comentava sobre a casa, mais aquilo ainda. Sempre que pousava fora de casa era assim. Quis se aborrecer, mas se deu conta que já estava na hora de deixar as cobertas.
Veio dormir ali porque os donos da casa e os empregados iam sair cedo. Na cidade iriam pra festa de formatura de um dos filhos e ele ficaria caseireando.
A filha caçula dos donos da casa, quando estudava com ele na escola, até que trocavam olhares. Não chegava a ser namorico, mas um calorzito dentro do peito era sentido. A guria era bonitinha e safada, dava umas linhadas pra ele, porém ele sabia que sendo filho registrado só no nome da mãe e mulato, estava descartado qualquer namoro, apesar de ser gente boa. Essa gente mais antiga dava muita importância pra isso.
Passou os dias em roda de casa. De vez em quando puxava a gaita de boca do bolso, soprava algumas notas sem formar música, o que era contestado pelo uivo de um cusquinho mimoso. Aquilo foi repetido várias vezes. Ele achava engraçado o cusco uivar com o pescoço bem espichado e de olho fechado. Se o toque se prolongasse muito, o mijo do animalzinho escorria no terreiro.
Foi recomendado que a bóia do cachorro que estava atado era pra atirar de longe. Não facilitasse com o Tufão. Se chovesse, recolher os queijos. Tomasse sentido também que de vez em quando um gato aparecia pra pegar pinto. Se aparecesse algum estranho não falasse muito e dissesse que o patrão estava no vizinho.
Na hora de dormir, apagar bem o fogo. Que afastasse bem os tições...
A noite não é igual quando se dorme fora. A responsabilidade de cuidar da casa e uma sensação estranha, pra não dizer medo, fazia com que o sono não chegasse. Chegou até a tapar a cabeça. Será que os assombros se manifestariam? Depois de muito se revirar, pegou no sono. Parece que não deu tempo de sonhos, ou não se lembra se sonhou, o fato é que o dia vinha chegando. O canto do galo parecia longe, porém quando destapou a cabeça...
Assim passou o sábado e o domingo. Uma laranja de vez em quando, daí a pouco uma bergamota...
Na segunda de manhã, o caseiro se preparava pra tirar leite quando ouviu o rumor do carro da família que voltava. Tufão parecia que ia rebentar a corrente. Maneou a vaca e foi abrir a porteira.  Será que a caçula não viria junto? Pois não veio. O rapazito ajudou a descarregar a caminhoneta e voltou pra mangueira.
Entregou na porta um balde espumante de leite. Foi convidado a entrar.
Na cozinha, depois de um bom café, a patroa lhe presenteou com uma bombacha castelhana e mais umas caixas com salgadinhos da festa, além de uns bons trocados e elogios de que tudo estava bem.
- Então até outro dia! Quando precisarem estarei pronto!
         Assim, pegou o chapéu, a estrada e de vez em quando abria o pacote pra espiar a bombacha nova.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

O VELHO BUGRE E O HOMEM DO CARROÇÃO


         Passava um pouco do meio dia. O sol tinia de quente. Um dos cachorros deu um avanço. Olharam pela janela e viram que despontava na estrada um carroção de quatro rodas, coberto por uma tolda de pano e puxado por dois cavalos “lazão” malacara.
         Era conduzido por um homem claro, de chapéu com abas pequenas e a copa redonda. Usava óculos e botas estilo caipira e falava com sotaque de estrangeiro.
         Parou na estrada em frente à porteira, levantou-se do banco tirou o chapéu e pediu licença.
         - Vai lá guri, abre a porteira, manda o homem passar e leva o carroção pra sombra das taquareiras, disse o pai.
         O guri foi. O homem apeou, se dirigiu pro lado da casa, onde o dono esperava.
Ao conduzir o carroção pra sombra, o guri viu que sentado no recavém, com as pernas dependuradas, vinha um bugre velho. Ajudou desatrelar os cavalos e alcançando um porongo, cortado em forma de tigela, pediu água, depois deitou num vão entre as taquaras.
O dono do carroção sentou-se à sombra, tirou um lenço pra enxugar a testa e comentou sobre o calor.
Perguntado se já havia almoçado, disse que sim. O dono da casa ainda perguntou de onde ele viera e ele disse: de muito longe!
- Aceita um mate?
- Não, só um pouco de água.
Entre um gole e outro, o homem perguntou se a família era grande.
-Eu, a mulher, este guri, aquela pequena que está agarrada no vestido da mãe e (depois de um pigarro e olhar tristonho continuou) uma menina moça que está muito doente lá no quarto. Trouxemos ontem do hospital, desenganada.
- O que houve?
- Sabe o senhor? Quando veio as “regra” ela tomou banho na água fria da fonte, enquanto lavava roupa. De lá pra cá, nunca mais se afirmou.
O homem pediu pra ver a mocinha. Depois foi no carroção e voltou vestido com um roupão branco e uma maletinha na mão. Mandou que todos fechassem os olhos e que tivessem muita fé. Só era pra abrir os olhos quando ele mandasse. Assim foi feito.
Não lembram os minutos que ficaram de olhos fechados e nem viram o que foi feito. Lembram de que tudo ficou no mais absoluto silêncio.
O homem voltou no carroção, tirou o roupão e veio pra sombra. Pediu que nada fosse falado no que havia acontecido minutos atrás  e que só fossem no quarto da mocinha, depois que ele fosse embora. Continuou falando apenas de coisas comuns, por mais um tempo.
Assim a tarde foi passando, até ele pedir que atrelassem os cavalos pra ir mais adiante.
Foram até a porteira com ele, porém o guri notou a falta do bugre. Intrigado, indagou ao homem: o bugre não vai junto? Ele respondeu que o bugre quando foi chamá-lo, disse que há muito tempo morava ali.
A roda do carroção desquinou o barranco deixando a descoberto um caco de panela de barro.
Quando voltaram pra dentro de casa, a mocinha caminhava pela casa como antes da doença.
Na vizinhança ninguém viu o carroção passando pela estrada.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

CACIMBA

Desenho próprio
Um espelho no olho d’água
contra o barranco da sanga,
onde se miram pitangas
araticuns e ingás
e um pé de cambará
abana-te preguiçoso,
junto ao canto melodioso
da garganta do sabiá.

A tabatinga vermelha
forma a tua moldura,
abençoada água pura
que vem de dentro do chão,
bebi no meu chimarrão
de tardezita sentado
e aqui às vezes “acocado”,
bebi na concha da mão.

Nesta fonte cristalina,
mais de uma vez por dia,
os porongos eu enchia,
quando pequeno aqui
e me mirava em ti,
pelo rosto a mão passando
pra ver se estava despontando
a barba neste guri.

Nunca esquecerei cacimba
que esta água corrente,
matou a sede da gente,
por muitos anos a fio
e sinto até um arrepio,
de te encontrar novamente
e saber que és a mesma vertente
que o bisavô descobriu.

Hoje voltei outra vez
para matar a saudade
e saciar a vontade,
num gole bem macanudo,
pois eu sei que farás tudo
pra refrescar o guri,
que agora se mira em ti,
porém crescido e barbudo!