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terça-feira, 30 de abril de 2013

... DOS SÁBADOS


Já era um pouquito tarde
ao me dar conta da hora
mas quando a vontade aflora
a ânsia faz um alarde
e até parece que arde
como uma brasa no peito
fui de pronto dando um jeito
de me preparar pra farra
juntando as minhas garras
pra encilhar no parapeito

 
Dei um traquejo na figura
com brilhantina e estrato
no pescoço um maragato
e meus “talher” na cintura
bati casco na planura
escutando a voz do vento
me roía algo por dentro
quando despontou a lua
como um olhar de xirua
a instigar meu intento


Quando cheguei no povoado
ouvi uma gaita na manha
busquei a meia de canha
“golpiando” num baita trago
atei o zaino pra um lado
tirei as esporas e o pala
com uma vaneira baguala
veio um olhar sorrateiro
que pra quem é bem matreiro
vale mais que uma fala

 
Me entreverei na bailanta
demonstrando habilidade
pois andava com vontade
de pescocear uma percanta
fazer uso da garganta
pra um cochicho ao pé do ouvido
às vezes meio atrevido
motivado pelo anseio
que rasga a gente no meio
num frenesi desgranido
 

No compasso da vaneira
um namorico ainda morno
ia saindo do forno
bem à moda campeira
eu ia assim pela beira
porque o mingau era quente
tem que ter tato um vivente
pra chegar onde ele quer
porque um refugo de mulher
derruba e machuca a gente

 
“Tentiei” um apertãozinho
com a mão direita no cinto
fui subindo até o brinco
mas muito assim de mansinho
já era quase um carinho
de malícia revestido
a prenda ajeitou o vestido
fazendo um contrapasso
dando um tirão no meu braço
me chamando de atrevido

 
E bem no meio da sala
ela me deixou solito
depois de passar um pito
pelo que perdi a fala
chamaram o mestre sala
que logo me deu o recado
e sem olhar para os lados
voluntário fui saindo
com dois brigadianos rindo
cada um no meu costado

 
Tá certo eu vinha carente
mas isto não justifica
a prenda era bonita
educada e descente
mas o fogo em minha mente
me fez perder a parada
e com a fuça deslavada
da casa tomei o rumo
não arrumei nem pro fumo
por ter feito esta cagada

sábado, 27 de abril de 2013

MATEANDO SÓ

Foto própria
Vejo o verde do campo
na erva que cevo o mate
e uma saudade me bate
do galpão grande da estância
onde eu ouvia com ânsia
sentado no meu banquinho
os causos do seu Negrinho
nos meus tempos de criança

Aquele filho de escravo
que eu chamava de vô
muitas vezes me salvou
de apanhar com a bainha
quando eu correndo vinha
pedir sua proteção
gritava lá do galpão
deixa o menino madrinha

Tudo se foi com o tempo
também se foi o guri
e hoje mateando aqui
o banco não é o meu
o vô Negrinho morreu
levando os causos com ele
só resta uma espora dele
que de presente me deu

quarta-feira, 17 de abril de 2013

SURRANDO DE CIMA

Desenho de Felício Lampert



Ando riscando de esporas
um pingo comprado há pouco
atiro os cacos no lombo
e saímos num sufoco
esconde a cara nas mãos
se ergue longe do chão
em disparada de louco

Só domo a campo fora
pra mostrar que sou bagual
a espora come solta
vou tironeando o bocal
não me afrouxo pra beiçudo
pois cuiudo por cuiudo
temos muito por igual

Não tenho perna ensaboada
e  esta lida me fascina
tenho coragem de sobra
tapeio o folha de “abobra”
e vou surrando de cima

Faltando amadrinhador
encilho mesmo solito
o cavalo me conhece
quando lhe prendo o grito
bato com o mango na anca
alço a perna e boto banca
me enforquilho e me acredito

Talvez no fim de semana
já possa ir no povoado
pacholear e tirar prosa
com este pingo gateado
tomar uns tragos na venda
quem sabe laçar uma prenda
pra viver no meu costado

Se tiver a felicidade
de laçar uma prenda linda
dou um traquejo no meu rancho
em carinhos me desmancho
mas continuo na lida

terça-feira, 16 de abril de 2013

"APAXONADO"

Desenho de Felício Lampert
Se achegou no bolicho
com um olhar deslumbrado
e no balcão escorado
me historiou de um cambicho
que tal qual um carrapicho
bem enroscado na crina
uma mulata flor de china
com olhar de lua cheia
lhe encantou que nem sereia
só relampeando a retina

Pediu logo uma garrafa
daquela de alambique
e sem muito riquefique
eu lhe disse desabafa
onde tem fogo tem fumaça
tua cara não me engana
descasca logo a banana
que ela não tem caroço
desembucha esse pescoço
e manera mais na cana

Distante andava o pensamento
vagando alheio a tudo
permanecia ali mudo
como um guri desatento
resmungou por um momento
dando um suspiro dobrado
quadrou o corpo de lado
e mesmo sem olhar pra mim
com um timbre de clarim
gritou "tô apaxonado"!

quarta-feira, 3 de abril de 2013

SONHO DE UM GURI

Foto de Giancarlo M. de Moraes
 
Assim que se viu taludo,
quis se mandar pelo mundo,
não pra ser mais um vagabundo,
andar sujo e melenudo.
Seu desejo era saber tudo,
sobre o que pode um vivente,
se misturar noutra gente,
matar a curiosidade
e ser um homem de verdade,
sem renegar a vertente.
 
Encilhou o baio ruano,
que saiu mascando o freio,
pra alimentar seus anseios,
com pinta de um veterano.
Acompanhando o Minuano,
batia cascos solito,
fumaceando um longo pito,
igual o avô fazia
e na imaginação ouvia,
a ânsia lhe dando gritos.
 
Partiu com o aval do pai
e da sua mãe o soluço,
porém o forte aguço,
lá dentro dizia: vai,
só quem é fraco não sai.
Então ouvindo o consciente,
com sonhos de adolescente,
rumou ao desconhecido,
buscando da vida o sentido,
que palpitava na mente.
..................................................
 
A vida lhe deu essências,
como sonhou o guri,
andou daqui para li,
acumulou experiência.
Com o fardo da vivência,
e muitos anos na anca,
um dia surgiu a estampa,
mascando reminiscências,
na porteira da querência,
um senhor de barba branca.