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domingo, 27 de janeiro de 2013

RECADO PARA A CHUVA

Desenho de Felício Agostini Lampert
Passava das duas e pouco da noite quando as rajadas do vento norte começaram dar “trompadas” em tudo, fazendo aquele reboliço característico quando ele passeia pelo pago.
         Uma folha de zinco com uma das pontas soltas que fazia contraponto com a porta do galpão, presa só numa dobradiça, fez com que o peão levantasse pra dar um jeito. Atou a porta com um ajojo, porém o zinco, deixou para quando o dia clareasse.
         Cansado, deitou-se novamente, mas mesmo tapando a cabeça não conseguiu firmar o sono.
         O vento alternava suas rajadas entre fortes e fracas, às vezes parecendo ter-se ido, mas bufava novamente balançando tudo.
         O sol penetrando por uma janela entreaberta trouxe o dia a cabresto. Nesta hora o peão já chimarreava, “entertido” com a dança das labaredas provocadas pelo vento que se espremia pelas frestas da parede e por baixo da porta, fazendo a poeira entreverar-se com a fumaça, numa dança rebojada em um dos cantos do galpão.
         Lá no terreiro, os galhos quebrados pareciam se agarrar uns aos outros, amontoados contra a cerca da horta. O mais, tudo voara em direção ao sul, menos a folha de zinco que lá da “cunheira” continuava abanando, como pedindo socorro.
         Mais dois dias ainda, o vento continuará, amainando um pouco com o sol que lhe puxa o freio e se aproveitando do escuro da noite para junto com os mitos fazer esparramo e depois levar o recado para a chuva que o passeio dele terminou e chegou a hora do passeio dela.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

HERANÇA

Esta vontade de amar o pago
é a herança de um antigo Rio Grande
correndo forte nas veias farrapas
purificando o meu próprio sangue

Esta vaidade de andar pilchado
me foi passada por meus ancestrais
idnumentária que identifica
não sendo apenas vestes ornamentais

Esta coceira que me dá na sola
é uma sarna que herdei das bailantas
escaramuçando e sovando as botas
e calejando a anca das percantas
 
Esta ânsia que rói o meu peito
é um calor herdado d'alguma paixão
há muito tempo arrinconada em mim
vício danado qual o chimarrão

Esta paz que habita meu rancho
é uma dádiva do Patrão do Céu
e agradeço quando dobro o joelho
falando com Ele tirando o chapéu