Páginas

Marcadores

sábado, 29 de setembro de 2012

O PEÃO E AS ESTRELAS


Foto de Giancarlo M. de Moraes
          A noite era tão calma quanto clara.
       O peão, após ter passado o dia na casa da namorada, retornava para o rancho, “a pézito no más”, por um atalho através campo.
       Caminhava “entertido” com a própria sombra que a lua cheia fazia projetar sobre suas botas. Às vezes atirava o chapéu uns metros a sua frente, acompanhando o encontro dele com a sombra no chão, repetindo várias vezes.
         O latido distante de um cachorro quebrou o silêncio, pressentindo que alguém transitava pelo campo.
         Contornando um capão de mato, seguiu por um trilho do gado que cortava a coxilha limpa de onde pode ver o céu com toda sua grandeza e milhões de estrelas povoando aquela invernada de propriedade do Patrão Maior.
            Contemplando as estrelas, imaginou em dar uma de presente para a sua prenda.
         Mais uma quebra do silêncio. Desta feita, um casal de quero-queros o trouxe de volta ao caminho. As aves revoavam dando rasantes sobre ele, enquanto se valia do chapéu para espantar o casal que por certo defendia o ninho.
         Após mais uns passos, tornou a olhar as estrelas, vindo novamente o pensamento de presentear a prenda. Mas qual das estrelas conseguiria dar? Todas eram dignas de um presente.
         No seu devaneio continuava caminhando e olhando para o céu.
         Ao chegar na porteira do seu rancho, a lua lhe dava boas vindas e ele olhando para trás, viu quando uma estrela se desprendeu deixando um rastro luminoso escondendo-se na coxilha por onde ele havia passado.
         No decorrer da semana, um guri a cavalo foi lhe entregar um bilhete da sua prenda, no qual dizia ter sonhado com ele chegando na casa dela, montado num lindo cavalo, repontando uma estrela cadente.


quinta-feira, 27 de setembro de 2012

A ÂNSIA DE UM ENCONTRO

Foto de Giancarlo M. de Moraes
 
Lá fora, as moradas não são muito próximas. A vizinhança é bem espalhada. Um rancho cá, outro acolá e assim se vai.
           Fazendo parte deste cenário, dois ranchos eram separados por um rio e um mato que era pouco mais que um capão.
           Numa das moradas, havia um cachorro, que por sua “brabeza”, ficava sempre atado. Já nem sabia quanto tempo vivia assim. Na morada do outro lado do rio e encoberta pelo mato, também atada, uma cadela passava sua vida.
           Apesar de nunca terem se visto, os dois se namoravam à distância, através de apaixonados latidos e quando em vez, o faro do cachorro aquecia com a febre do cio.
           A ânsia de um encontro já durava um bom tempo, porém a chance era quase impossível, uma vez que seus donos não se descuidavam, e soltá-los, jamais.
           Certa tarde, o cachorro sentiu sede e foi até o cocho, onde sempre costumava beber. Nenhum pingo de água encontrou. Avistou mais afastada, uma gamela transbordando. A corrente o impedia de chegar até ela. Forçou, forçou e de repente a coleira cedeu e ele, quase não acreditando, viu-se solto.        
          O sol recolhia seus últimos raios e o lusco-fusco se colocou entre o dia e a noite.
           Afoito, o cachorro sorrateiramente foi se distanciando do seu rancho em direção à morada de sua amada. Seu coração corria mais que ele. Botou o peito n'água, atalhou pelo mato e ao sair dele, já era mais noite do que dia.
         Cauteloso foi se aproximando cada vez mais daquela que tanto lhe correspondeu. Mais uns passos e divulgou o vulto de uma pessoa e junto a ela a cachorra, que sem dúvida era o amor de sua vida.
         Levado pela emoção descuidou-se ao pular uma valeta, provocando um barulho, fazendo com que a pessoa o notasse, sendo confundido com um cachorro comedor de ovelhas.
         Um revólver desferiu certeiro tiro na cabeça, deixando o pobre animal ali no cavaco.
         Quando o peão aproximou-se para se certificar de que matara o cachorro, a cadela foi junto. Ele estava realmente morto, nem agonizou.
         O peão o reconheceu e viu que havia cometido um engano e retirou-se abichornado.
         A cadela alheia cheirou o cachorro morto e acompanhou o peão de volta ao rancho.


TERAPIA DO GALPÃO

Desenho de Felício Lampert
 
Boleia a perna parceiro
e senta para um amargo
contar causo e tomar trago
fumaceando um palheiro
enquanto vai no braseiro
se  aprontando a costela
passa o tempo na janela
levando a história consigo
eu vou proseando contigo
também somos parte dela

Neste rancho te arrincona
como se estivesse em casa
pois sempre tenho na brasa
água quente na cambona
um violão e uma cordeona
pra canto e poesia
sendo a melhor terapia
no aconchego do galpão
rondando o fogo-de-chão
seja noite ou seja dia

Por isto meu amigaço
meu rancho não tem tramela
e sempre abro a cancela
pra quem vier trazer um abraço
e com uma trança de laço
feita com amizade e zelo
cerro a armada em qualquer pêlo
num tiro que pacholeio
e trago pra o meu rodeio
tendo a sinceridade por sinuelo

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

ORGULHO DE UMA RAÇA

Sempre acordo mais gaúcho,
dia vinte de setembro
e orgulhoso relembro,
os feitos de uma raça,
que debaixo da fumaça,
demonstrou como se vence,
criando a República Riograndense,
peleando e fazendo graça!

sábado, 15 de setembro de 2012

ROSILHA

Foto de Marcus Vinicius M. de Moraes

O narrador chamou seu nome
dando sequência a planilha
o xiru cutucou a rosilha
pediu que soltassem o boi
levantou o laço na pista
e tal qual uma faísca
enroscou a cola e se foi


A rosilha já aprendeu
o que fazer nesta hora
não precisou de espora
correu com pata folgada
na hora certa se abriu
o laço da mão partiu
e deu bandeira colorada

O laço se estendeu
entre a argola e a presilha
cerrou sem pegar orelha
mas que florão de rosilha
 
 
Bem calçado no estribo
sentado firme no arreio
cada corda é um floreio
e dez pontos na planilha
mostrando que braço é braço
em cada tiro de laço
e a confiança na rosilha



quarta-feira, 12 de setembro de 2012

ACHO JUSTO

Foto de Marcus Vinicius M. de Moraes

Depois de um rodeio bagual,
numa tarde de domingo,
na calma água do açude,
mato a sede do meu pingo.

Primeiro eu trato dele,
pois não merece castigo,
depois que prendo na cocheira,
que me preocupo comigo!


terça-feira, 11 de setembro de 2012

...DAS CARRETAS

Respeito, Marujo, Sereno,
Bordado, Tirano, Marinheiro,
Serrano, Pavão, Sombreiro
e o veterano Cola-branca,
na paisagem a linda estampa,
destacando-se na estrada,
das carretas carregadas,
cruzando a nossa pampa.

As picanas de taquara,
as carretas num rangido,
a baba num fio comprido,
a fumaça de um palheiro,
a alma dos carreteiros,
junto as carretas rodando,
nas pousadas se encontrando,
qual um grande formigueiro.

Patrão Velho, pra onde irá,
aquele taura da estrada?
Já não tem mais carreteadas,
estão sumindo de fato.
Teremos apenas relatos,
dos antigos estradeiros
e a lembranças dos carreteiros,
nas pinturas e nos retratos!

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

... DOS BOLICHOS




Foto própria 
Ao passar pelo bolicho,
“boliei” a perna e entrei.
Mais pra matar a saudade,
porque depois que vim pra cidade,
nenhum igual encontrei.

Aquele cheiro d’erva e fumo,
ainda existe por lá
e sobre o balcão, o mesmo vidro,
de caramelos sortido,
que se babava este piá.

Bem ao correr do balcão,
um velho banco de campanha,
onde a turma lá de fora,
grudava a bunda por horas,
nas prosas e tomando canha.

Assim meio retirada,
está a mesa pra um lado
e se a memória não me falha,
quatro cadeiras de palha,
onde o pife era carteado.

Já de melena tordilha
e com a idéia meio tonta,
seu Maneco me atendeu
e o que ele me vendeu,
queria botar na conta.

Paguei as compras ao velho
e com emoção lhe abracei,
fiz logo uma meia volta
e assim que cruzei a porta, 
engasgadito, chorei!

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

TRADIÇÃO É TRADIÇÃO

Foto de Francielle V. Dalla Lana
           
            Hoje, encontrei na estrada, um gaúcho bem pilchado, como a tempo eu não via. Nos seus oitenta e lá vão janeiros, calejado da lida, humilde e autêntico.
            O lenço branco que trazia atado ao pescoço, com suas franjas que desciam até quase à fivela da guaiaca, foi o que mais me chamou atenção, pois lembrei muito do meu avô, que assim também usava e cujo lenço ainda hoje tenho comigo.
            Ligeiramente, me passou pela memória cenas de outros gaúchos que conheci, os quais viveram a legítima tradição gaúcha, herdada de tauras que não são mais comuns em nosso meio.
            O modernismo, os “conhecedores” da tradição gaúcha adquirida em gabinetes e historiadores sem história, abafam aquela autenticidade de quem realmente viveu os tempos de um Rio Grande do Sul farrapo, com suas raízes firmes e fortes que fizeram-no frondoso por suas lutas e glórias.
            Lembrando daquele gaúcho que encontrei, com o lenço comprido, pergunto:
            - Será que estes gaúchos de agora, que se preocuparam em encurtar o lenço, dando medida milimétrica, são mais gaúchos do que aquele do lenço longo? Será que dentro de suas malas de garupa tem um passado que realmente dê força para tal inovação?
           Tradição não muda, é o laço do passado com o presente!

MEU JEITO


Foto autor desconhecido

Sou pobre, humilde e honesto,
riqueza não me fascina,
tenho a proteção divina
e um coração feliz,
que pulsa sem cicatriz,
tranquilo dentro do peito,
vim ao mundo deste jeito,
porque Deus assim o quis!

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

VIVENDO NA PUA

Ando triste meu compadre
a minha porca se sumiu
será que roubaram
será que fugiu

Comprei ela por noventa
pra pagar à prestação
e depois que desse cria
dar em troco um leitão

Aos quatro ventos do pago
já corre um boato solto
que ela pulou o chiqueiro
e fugiu com outro porco

Percorri a redondeza
e nada da porca preta
o cachaço anda triste
e os leitões choram por teta

Que situação meu compadre
além de ir meu dinheiro
dói a alma ver os guaxos
secando lá no chiqueiro

Nunca deixei faltar “bóia”
e nunca dormiu na rua
mas deve ter um motivo
pra andar vivendo na pua