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sexta-feira, 27 de abril de 2012

A JEITO


“M’encontrei” com tio Florindo,
no Sindicato Rural,
moreno flor de especial,
que há muito tempo eu não via,
sempre a mesma simpatia,
daquele velho amigaço
e quando lhe dei um abraço,
sua lágrima escorria.

Minha voz também falhou,
quando avistei o moreno,
pois no tempo de pequeno,
muito me abracei a ele,
era o mais parceiro dele,
dentre os outros guris
e muita emoção senti,
ali abraçado nele.

Passou a mão na minha cabeça,
com o mesmo jeito e carinho,
me vi aquele piazinho,
no colo do tio Florindo,
que quando o sono vinha vindo
e num pealo me boleava,
ele então me cosquilhava,
pra ver se eu estava dormindo.

Quando se vem lá de fora,
pra estudar na cidade,
não vemos passar a idade,
tudo corre, tudo voa,
distanciamo-nos das pessoas,
até sem nos darmos conta
e quando a gente se encontra,
as lágrimas não são à toa.

Dizem que o que passa não volta,
mas será que é bem assim?
O que aconteceu pra mim,
ao velho amigo abraçado,
contra seu peito apertado
e alisando meu cabelo,
não foi mais que um sinuelo,
ponteando o meu passado!

quarta-feira, 25 de abril de 2012

NO VELÓRIO



Lá no velório do compadre Honório,
vi a Maria com a dona Luzia,
tava a Dorotéia abraçada numa véia,
que chorava muito e era sua tia.
Tava o Herculano e o Merenciano,
sentados junto com o seu Decunto,
dona Manoela e a filha dela,
que conformavam a muié do defunto.

Dona Marica é quem dava a dica,
mais o seu João e a Conceição,
compadre Chico e o véio Nico,
não descuidavam do chimarrão.
Comadre Chica e a dona Rita,
lá para dentro queimavam incenso
e o Clarimundo num sono profundo,
babava toda a franja do lenço.

Dona Carmozina e a Vicentina,
o seu Hilário e o véio Ladário,
dona Ritoca e a véia Finoca,
rezavam o terço apalpando o rosário.

O Florentino e o Vitorino,
batiam trela perto da janela,
de lenço preto compadre Barreto,
não descuidava na troca das velas.
De sentinela cuidando as panelas,
lá na cozinha comadre Chininha,
num arroz campeiro que soltava o cheiro,
da banha pura fritando galinha.

Clareou o dia na manhã fria,
o Sebastião encilhou o alazão,
foi com o Januário buscar o vigário,
pra encomendar o corpo e fechar o caixão.
Numa carreta com mortalha preta
o seu Lautério levava o gaudério
e nós de a cavalo com um nó no gargalo,
guardemo o corpo lá no cemitério.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

MELANÇA MELADA

A tarde continuou com o sol brilhante como o que fez durante a manhã. A gurizada se reuniu e saíram para melar as lixiguanas que haviam sido achadas durante algumas semanas, no meio das touceiras de guavirova do campo e marcadas para a melança quando chegasse o domingo. E o domingo chegou, com o vento a calhar.
         Resolveram levar, pela primeira vez o piá mais novo, sob a responsabilidade do mais velho da turma com as recomendações da mãe.
         Dois cusquinhos faziam parte do “batalhão”. Cada guri levava um casaco ou um cobertor para proteção contra as ferroadas. Um saco de estopa era enfiado por sobre o chapéu e amarrado no pescoço. Um gancho bem afiado na ponta de uma taquara de mais ou menos três metros, facão e uma lata de leite ninho, bem limpinha e vazia, para no caso das lixiguanas serem gordas, guardar o mel.
         Entusiasmado, o melador de primeira viagem tagarelava com lorotas de que isso e aquilo, que eu fiz, que eu faço e assim prosseguiam. Os cusquinhos patrulhavam por entre as moitas farejando e quando em vez, levantavam alguma perdiz ou tico-tico rasteiro.
         Expectativa geral quando um dos guris gritou que a que ele havia achado estava na moita logo ali adiante, apontando na direção da mesma.
         Vamos nos encapotar, disse o mais velho. Atemos os cuscos e chegar pelo lado de lá da moita, a favor do vento. O piazinho, com a ajuda de outro maior, também se equipou, o que foi conferido pelo mais velho.
         De praxe, o descobridor da lixiguana, era o primeiro a investigar. Silêncio total, pé ante pé, arreda daqui, arreda dali e uma espraguejada com toda a força do pulmão:  
         - LAGARTO "FIADAMÃE", SOLTEM OS CUSCOS QUE O BICHO AINDA TÁ ALI NA MOITA.

sábado, 21 de abril de 2012

ÂNSIA


Foto de Giancarlo Marques de Moraes
A estrada abriu os braços,
quando viu que eu voltei,
senti então os abraços,
iguais aos que antes dei.

Dentro da mala não veio,
o mesmo que eu levei,
mas no coração o anseio,
quando aqui desembarquei.

Prossegui pelo caminho,
a pé, falando baixinho,
com o meu eu guri

e depois da curva da estrada,
avistei a velha morada
e de lá em diante corri.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

A ESTÂNCIA DO UMBU

         Até a idade de oito anos, foi filho único. Morava num rancho simples, onde um umbu antigo, que ainda sombreava o terreiro, abrigava entre as raízes grossas e salientes, a estância da fantasia daquele guri, com suas mini mangueiras construídas com capricho, nada faltando, inclusive, banheiro para gado e ovelhas.
         Solito, já que os vizinhos moravam a mais de légua, gastava o tempo a sua maneira. Enquanto folgava da escola e das lidas de guri de campanha, tropeava, vendia, comprava, banhava, marcava, enfim, tudo que era acostumado ver seu pai e demais peões fazerem ao patrão e que às vezes, também dava uma ajudazinha, conforme seu tamanho e idade permitisse.
         Adquiria seu gado e ovelhas, nas carniças e na colheita do milho. Conhecia ainda na espiga se a “rês” era de ponta e apartava num balaio, onde mais tarde, depois de debulhada seria mais uma cabeça no seu rebanho.
         Eram comuns os sonhos durante a noite, onde ora atiçava, ora ralhava com a cachorrada, chegando muitas vezes levantar e caminhar pelo rancho, sofrenando um cavalo e reboleando o braço como se fosse atirar uma armada.
         Com a chegada da mana, seu tempo ficou mais escasso, prejudicando um pouco seu serviço. As mangueiras necessitando uma ajeitada, o banho no gado, trocar o touro, vacinar, tosar as ovelhas, curar, retemperar a calda dos banheiros, marcar, castrar...
         Muitas vezes queixou-se ao pai que a “Estância do Umbu” tava ficando abandonada, que já havia falado para a mãe, mas ela só respondia que uma hora ou outra, sobraria um tempinho.
         Com a maninha no colo, sentava-se à sombra do oitão e contemplava absorto o abandono de seu patrimônio e resmungava com a miúda, atribuindo-lhe a culpa de tudo estar ao descaso.
Raramente aos domingos, uma fugidinha na estância, já que o pai estava por casa e enquanto chimarreava, tinha ao colo a prendinha.
         Passou o ano e o dono da “Estância do Umbu”, concluiu o que a escolinha rural oferecia. Em consequência, meio contrariado, teve que ir morar na cidade, na casa de um tio para continuar a estudar, visto sua inteligência.
         As horas, os dias e os meses custavam a passar. Umas visitinhas da mãe, um recadinho do pai, amenizavam a saudade. Muitas vezes, os sonhos também lhe visitavam.
         Fim de ano, férias e lá se foi ele pra fora. Chegou junto com a noite. Abraços, beijos e a comidinha caseira gostosa. A mana já caminhava e era cheia de vontades.
         Cedito no outro dia, ansioso, foi matar a saudade da sua estância, porém ela estava por terra, onde por entre as raízes do velho umbu, via-se o rastro, ainda fresco, dos sapatinhos da mana.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

ATEMPADO

Me bateu um garrotilho,
que me deixou meio torto,
uma dor em todo o corpo,
eu tava me vendo mal.
Só não fui pro hospital,
porque febre não me deu,
a tia Finoca me benzeu
e receitou melhoral.

Não sinto cheiro nem gosto,
me sento e fico tonto,
vou falar só sai um ronco,
me dói a raiz das crinas
e quando o dia termina
e a noite chega de manso,
a tosse não dá descanso,
deixando a goela brasina.

Quase uma semana atempado,
sem apetite nenhum.
Nos ouvidos um zumzum
e melequeira nas ventas.
Nos olhos pura pimenta,
com uma chiadeira no peito
e acho que pelo jeito
desregulou minha lenta.

Agora me levantei,
mas ainda com fraqueza,
me dá aquela moleza
e me “froxa” o garrão,
sento perto do fogão,
olho a “bóia” e me repuna,
não como coisa nenhuma,
tá sem gosto o chimarrão.

Com a idade chegando,
se perde a resitência,
tem que se acreditar na ciência,
e nos bens da medicina,
mas o chazinho da china,
com um beijo de inhapa,
cura o vivente num tapa,
sem a reação da vacina!

CHOVEU LÁ FORA

Foto própria



A chuva até que foi boa
foi bem mais que uma garoa
quando a tarde já se ia
poças d’água no terreiro
o açudezinho faceiro
e a piazada numa folia

A sanga deu uma encorpada
a grama mais esverdeada
e enxames frente à casa
as galinhas corcoveando
os pássaros se banqueteando
com as formigas de asa

Mateio no oitão do rancho
enquanto a noite de manso
traz sapos em estribilho
a cuscada fica alerta
pressentindo que na certa
terá raposa e zorrilho

FIM DE MATE

Nosso fogão lá de fora




Fim de mate enxágua a cuia,
corta lenha, enche a talha
e uma cachopa de palha,
incendeia num clarão,
acende o fogo pra xepa,
chaleira e panela preta,
se emparceiram no fogão!

ATA S/N°

Se não me falha a memória (também não estou aqui pra mentir), mais ou menos as duas e pico da tarde do dia 6 de setembro deste mesmo ano que estamos, juntou-se a peonada com o Patrão do CTG “TE CUIDA VIVENTE”, pra esclarecer uns enroscos havidos e que por certo teriam que ser resolvidos sem o uso das armas, ou salvo melhor juízo. Mas bueno, chega de encher linguiça e vamos logo pros finalmente. Andaram engrezando que um peão, durante a dança de um xotes com uma prenda, andou babando no degote do vestido da mesma, após ter metido a língua no ouvido da moça, sem a devida permissão dela e de ninguém mais. Contam ainda que a prenda foi palmeada por ele, um pouco abaixo das ancas, quando ela já tava entrando no quarto das moças, com certeza pra limpar a baba no pescoço, lavar os ouvidos e até quem sabe pra dar uma aliviada na bexiga, ou talvez na mondongueira. Segundo fuxicos sobre o ocorrido, há uma testemunha que diz ter presenciado o fato, o que não dá pra se dar crédito porque se trata de uma véia fofoqueira e que enxerga pouco, principalmente no meio da polvadeira da sala e que a dita idosa nem no fandango estava, conforme relatou seu sobrinho, que por sinal já foi vítima de intrigas da tia. Dando alce na conversa, o Patrão depois de torcer e destorcer o bigode várias vezes, mandou este secretário buscar a prenda ofendida para saber se a mesma teria dado parte ao delegado. Deixei o local da reunião, passei na copa tomei um gole graúdo e fui atrás da dita prenda, só que não tinha pista nenhuma sobre a guria. A única referência era sobre a moça que teve os ouvidos lambidos durante um xotes e que depois fora palmeada abaixo das ancas quando já estava entrando no quarto das moças. Daí, como ninguém quer se meter em encrenca, muito menos eu, após umas 3 horas de busca, voltei pro CTG, sem ter podido ajudar o Patrão, mas antes me batizei na copa de novo. Não registro aqui o que foi tratado na reunião, enquanto eu estava ausente, porque eu não estava presente e procurando a moça. E assim sendo, o Patrão mandou servir um mate para os presentes, dizendo que fatos desta natureza não poderiam se repetir no CTG, nem mesmo com a filha dele. Com um revesgueio nos olhos, o Patrão me deu sinal que tava encerrada a reunião, que por sinal de nada resolveu, mas mesmo assim lavrei esta ata que não atou nem desatou, a qual passo meu jamegão e depois de lida e aprovada (que eu duvido que seja) será jamegada pelos demais membros que estavam presentes na reunião. Rincão da Fumaça, em 6 de setembro como já disse acima.
Em tempo: deverão assinar a ata, mesmo aqueles que cochilaram durante a reunião, bem como o sobrinho da falsa testemunha. Tenho dito e me vou pra copa.

...DAS COMPRAS

Com os pilas da colheita,
saldei a conta da venda.
Comprei vestido pra prenda
e uma lata de pó “Lady”,
bombacha para o guri
e pra mim uma brilhantina,
meia de cangibrina
e um maço de “Liberty”.

Comprei um pacote de “fósfro”
e querosene pra o lampião,
erva pra o chimarrão
e pó de café Visita,
um lápis para as escritas,
dois pacotes de velas
e umas cascas de canela,
pra temperar a canjica.

A mala velha estufada,
já não cabia mais nada,
quando disse o bolicheiro
leva de brinde parceiro,
um maço de tijolinho,
esta garrafa de vinho
e uma água de cheiro.

Cheguei faceiro no rancho,
sem dever nada na venda,
avistei a minha prenda,
na moldura da janela.
O piá correu na cancela,
pra um beijo e um abraço
é assim que sempre faço,
quando a saudade atropela.

O FOLIÃO NO RODEIO

Me extraviei no carnaval,
bem na véspera do rodeio,
tomei um porre dos feio,
de perder as estribeiras,
nem sei como achei a porteira,
pra chegar até o rancho,
andou me batendo os gansos
e na cabeça uma zoeira.

Peço desculpa aos parceiros,
arrumem outro pra equipe,
me sinto tonto e sem pique,
tapado de purpurina,
sem pilcha e de cola fina,
não me darão boi no brete,
em tudo enxergo confete
e nos laços serpentinas.

Ainda zonzo das idéias
e com pimenta nas vistas,
tudo embaralha na pista,
desajustou o meu foco,
com o pó eu me sufoco,
“to” que nem biscoito em forno
e o gado lá no retorno,
até me parece um bloco.

Fui subir na arquibancada,
me vim de costa de novo,
fiquei perdido no povo,
sufocado no calor
e a voz do narrador,
no ouvido me embrulhava
e até me representava,
o canto do puxador.

Passei o dia bistonto,
foi assim o meu rodeio,
cheguei em casa ainda feio,
com um bafo no gargalo,
a tonteira me deu um pealo,
até nem dá pra falar,
quando fui desencilhar,
tinha esquecido o cavalo!

POR QUE?

Ao avistar a coxilha,
esverdeando no horizonte,
pareceu ter sido ontem,
que havia passado nela,
pois se procurar eu acho,
meu rastro por entre o pasto,
guardado no coração dela.

Da janela do meu rancho,
onde o tempo ia passando,
ficava te namorando,
nas horas de devaneio
e sem me dar conta, numa encilha,
te deixei minha coxilha,
cabresteado pelo anseio.

Busquei então o horizonte,
pra descobrir novas terras,
cruzei rios e subi serras,
sem saber o rumo certo
e calejado hoje volto,
e comigo me revolto,
pois tudo estava aqui perto.

Ondulada me esperou,
com teu vestido floreado,
num verde-amarelado,
do mal-me-quer florescido.
Com os olhos agora te abraço
e me pergunto: que diacho!
Por que então ter-me ido?

AO PAI



A ti velho querido,
vai um abraço de coração
e no som desta canção,
de violão, voz e cordeona,
nossa alma se emociona,
fica em festa e se alegra,
porque Deus nunca nos nega,
quando pedimos carona.

Tu nos ensinou pra nunca,
fazer o mal a ninguém
e a todos querer bem,
não ter orgulho e vaidade.
Dizer sempre a verdade
pra seguir nossa jornada
e não se vender por nada,
ter honra e dignidade.

Ao Patrão lá das alturas,
pra ti pedimos saúde
e que sempre nos ajude
e nos dê força no braço,
atirando sempre o laço
com certeza e confiança
com fé e perseverança
te envolvendo num abraço!

(Homenagem pelo transcurso dos 88 anos de idade)



SINA

Voltei,
só tu compadre e a comadre,
sabem porque voltei.
Pra vocês dois eu contei
o meu segredo de infância,
de que com quem fui criança
e agora me apaixonei.


Solteiro,
mas até quando?
Nem sempre serei solteiro,
meu coração é campeiro,
esperando a bolada
para cerrar uma armada,
num tiro velho certeiro.


Sina?
É certo que ela existe,
pois acredito na sina.
O Patrão do Céu que é bueno,
marcou pra este moreno,
aquela mesma menina.


Me caso,
no civil e religioso,
na hora certa me caso.
Tu sabe bem meu compadre,
que contigo e a comadre,
não foi simplesmente acaso.

GAJÁ

Foto própria


Fico a te contemplar no pasto,
e espero refrescar a tarde,
pra me debochar no basto.

RECANTO

                                 
Foto própria

Este é o nosso Recanto,
que a seca deu um castigo,
mas nem por isto impede,
de receber um amigo!

GAJÁ DO INFINITO


Este vídeo mostra a mansidão do nosso cavalo brincalhão.

ÚLTIMO MATE

       A pedido do patrão, a lida tinha que ser findada ainda naquele dia.
      Chegou em casa, já estava escuro. Desencilhou e antes da bóia ainda cevou o amargo.
      Sentou-se a frente do rancho num banquinho de três pernas, reclinando contra a parede para escorar as costas. Encheu o mate e começou a contemplar a noite escura como ele e as longínquas estrelas. O pensamento foi lhe levando cada vez mais próximo delas. Sentia a existência de um Patrão Maior que lá da sede daquela imensa fazenda controlava toda a peonada espalhada pelas invernadas terrenas.
      Viu-se sentado no alpendre dela, chimarreando, a contemplar as léguas e léguas de sesmarias, como sempre sonhou fazer um dia que fosse patrão.
      Quando amanheceu, foi encontrado morto recostado na parede, ainda com a cuia na mão.

NA MOLDURA DAS COXILHAS

Um Cury da cor da noite,
sobre a melena fincado,
num barbicacho trançado,
se garantindo ao vento,
o zaino troteando atento,
trocando orelhas faceiro
e um laço velho campeiro,
apresilhado nos tentos.

Uma bombacha de favo,
sobre a bota debruçada,
uma adaga atravessada,
em diagonal à espinha
e qual um galo de rinha,
duas esporas bagualas,
que ainda riscam a sala,
nos bailes da tia Candinha.

Um nagão do berro grosso,
escondido na camisa,
só puxa quando precisa,
ou a situação requer.
Um cambicho de mulher,
às vezes nos traz perigo,
ou pra defender um amigo,
se faz uso dos“talher”.

Tal o sol num fim de tarde,
no pescoço um colorado,
abanando pra os dois lados,
juntando de novo as franjas,
relho cabo de pitanga,
com a mesma trança do apero,
e uma água de cheiro,
pra disfarçar a da sanga.

Pras intempéries do tempo,
sobre a anca do animal,
um poncho marca Ideal,
da mesma cor do sombreiro,
dois cuscos flor de campeiros,
que ficam de sentinela,
na hora de molhar a goela,
no balcão do bolicheiro.

Esta é a estampa do taura,
desta Terra Farroupilha,
que na moldura das coxilhas,
peleou e queimou cartucho,
isto sim é o nosso luxo,
é isto que nos orgulha,
pois ainda tem bala na agulha,
nas garruchas dos gaúchos!

...DO OUTONO

                                
Foto de Giancarlo M. de Moraes


O sol tímido deu buenas
e arrastou o chinelo,
naquele chão amarelo,
de folhas de cinamomo,
em mais uma manhã de outono,
repontando a aragem fria,
acordando um novo dia,
que ainda estava com sono.

As árvores guardam o sereno,
nos galhos magros e esguios.
o vento num assobio,
chega pedindo passagem,
despencando a ramagem,
que sombreava no verão
e aparta a cerração,
que embaçava a paisagem.

O gado manso deitado,
baforando pelas ventas,
rumina em bocadas lentas,
parecendo-se alheio,
o bem-te-vi entre os gorjeios,
dá um traquejo no terno,
prevenindo-se para o inverno,
que “já’stá” mascando o freio.

As lavouras já colhidas,
deram lugar as pastagens,
modificando a roupagem,
das várzeas e das coxilhas
e já nas últimas encilhas,
antes do frio e das chuvas,
cambaleiam as saúvas,
com o sustento pra família.

Assim vai mais um outono,
o meu pago desenhando
e o friozito chegando,
trocando a cor do capim
e saudoso de onde vim,
mateio e me arrincono,
numa paisagem de outono,
pintada dentro de mim.

RECANTO DA NATUREZA

Foto própria

Eu e a prenda lá fora,
um dia acordamos cedo
e entre o mato e o arvoredo,
encontramos os passarinhos.
Sentiam-se à vontade,
diferentes dos da cidade,
bonitos, sadios e mansinhos.

Num pé de caqui, os sabiás,
chegavam discretamente,
e outros pássaros diferentes,
aproveitavam a fartura,
do alimento “in natura”,
que Deus nos dá de presente!

Passamos momentos sublimes,
que nem sabemos explicar,
mais vezes iremos voltar,
pra curtir tanta beleza.
É um lugar que gostamos
e por isto batizamos,
de “Recanto da Natureza”!

As árvores, a sombra, o sol,
os pássaros e o ar puro,
tudo isto, no futuro,
queremos que exista lá fora.
Senhor!
A Ti estamos pedindo,
para que nossos netos lindos,
possam ver e ter, o que estamos vendo agora!

MELHOR IDADE?

      Não sei bem ao certo, mas deduzo que nos tempos atuais os velhos são outros. Diferentes, digamos assim.
      Pois conforme a idade vem chegando, ou melhor, avançando e a velhice chegando, temos que ir aceitando aquilo que ela nos impõe.
      Em outros tempos, lá fora, nada fazia mal, não havia restrição em consumir ovos fritos, carne de porco, doce de "abóbra", "ambruzia", melado, rapadura (até com amendoim), arroz com galinha, feito na própria banha da penosa. Tudo isso era rebatido com um chá de "carqueija" ou "marcela".
      Nos comércios de carreiras, aqueles pastéis (com quase meio quilo cada um), bem temperados, recheados com ovo e guisado e de lambuja uma pimentinha, fritos na banha de porco, que ao mordermos, escorria pelo canto da boca. Sem contar que ao meio dia, uma costela gorda, de gado ou de ovelha, descia redonda após deixar um pouco da graxa no bigode, tudo era irrigado por um vinho colonial, após alguns goles de canha pura, um aperitivo para abrir o apetite.
      Daí então que hoje somos outros velhos, diferentes. Diferentes? Pois é, não comemos comidas com banha de porco, ovos fritos, raramente, arroz com galinha somente sem a pele da ave, doces com restrições, não vamos em comércios de carreira para desbuchar um pastel campeiro, vinho, somente uma taça e escolhemos o da uva que melhor combata o colesterol.
      Aqui na cidade, além de não irmos aos comércios de carreiras, passamos por bares, lancherias, padarias, restaurantes, cachorrões, churrasquinhos, etc. Se chegamos em um destes "bolichos", devemos observar que carne gorda não faz bem, que cerveja e refrigerantes causam "pressão alta", frituras entope as veias e assim vai.
      Somos velhos recheados de remédios e com vontade de comer e beber aquilo que gostamos.
      Somos velhos diferentes, ou melhor, idosos na melhor idade, hahahaha!

TUDO CERTO

      Uma mulher de meia idade veio para o povoado depois que ficou viúva. Morava solita num rancho meio afastado. Tinha uma horta e uma lavourinha onde colhia abóboras, pepinos, feijão, etc. Um "alvoredinho", predominando pessegueiros, cujos frutos eram aproveitados para compotas, que vendia.
      Foi ficando conhecida do pessoal por ser doceira de mão cheia e boa cozinheira. Vivia changueando pelas casas. Um dia fazendo pão, outro dia lavando e passando roupas e por vezes ajudando antes e depois das festas. Assim levava a vida.
      Mulher muito simplória para falar. Não tinha muita prática com as letras e as contas, como dizia, por isto confiava muito no bolicheiro que lhe ajudava na "contabilidade" quando por lá aparecia para contar os trocados que ganhava.
      Com o passar dos meses, o tal de namoro com os homens da redondeza começou ser comentado. Que ela recebia visitas durante a noite, essas coisas de aconchegar os carentes para um cafuné mais profundo e íntimo. Pessoas diziam não acreditar, outras ficavam em cima do muro e algumas colocavam uma pimentinha quando o assunto vinha à baila.
      Estes boatos fizeram com que ela perdesse um pouco a confiança de certas donas de casa, as quais não a chamavam mais para as lidas de costume. Por outro lado, os boatos foram favoráveis a ela, no sentido de ir aumentando o outro tipo de "freguesia". Contudo conduzia o negócio com cautela e sem espalhafato. Também não era diário o atendimento e controlava para que não houvesse acúmulo de clientes num mesmo horário, para evitar alguma rusga ou "converseio" muito alto.
       Sempre, depois de uma "noite farta", ela cedo ia ao bolicho para conferir a "féria".
      Pois foi numa manhã, após "noitada gorda" que ela chegou-se para o seu amigo e pediu que verificasse se estava tudo nos conformes.
      O Bolicheiro, que já sabia quanto ela cobrava de cada um, contou o dinheiro e perguntou quantos fregueses ela havia atendido durante a noite.
      Deu uma mordiscada no lábio e com o dedo de uma mão, contava nos da outra mão fechada, os quais iam se abrindo conforme fossem contados e assim foi declinando em voz baixa os nomes dos favorecidos.
      Quando terminou a contagem mostrou as mãos com todos os dedos abertos e usou mais dois do bolicheiro. Este deu uma olhada de admiração e espanto ao mesmo tempo pra ela e disse que alguém havia logrado porque estava faltando o pagamento de um.
      Ela meio enferruscou a cara, mordiscou o lábio de novo, pensou um pouco deu uma olhada para cima e num pulo disse:
      Ah! Me lembrei, o Nenê é meu afilhado, dele eu não cobro, tá certa sua conta!

ABRINDO UM PARÊNTESE

      A filha de um vizinho começou a sentir uns enjoos e tonturas. Andava vomitando pelos cantos da casa. O pai dela falava para a esposa que não gostava daquele agarra, agarra com o namorado.
Abrindo um parêntese: o namorado era sobrinho do cunhado de um domador que um fazendeiro trouxe da costa do Uruguai.
      O fazendeiro era conhecido como "Pai de Todos", visto ser um homem muito bom, pois, quem chegava na fazenda pedindo serviço, ele não deixava mal. Tinha um galpão grande onde juntamente com o tal domador, moravam todos os demais peões.
      Abrindo um parêntese: o pai do fazendeiro, que era um homem muito buenacho também, foi companheiro de quartel do primo do compadre do dono do ônibus que fazia a linha pra fronteira.          
     Falando em fronteira abro um parêntese: só pra lembrar que o cunhado do domador era fronteiriço e tropeiro.
      Mas voltando a história da moça, ela foi levada para a cidade para uma consulta. Não foi de ônibus e sim de carona com um vendedor de roupa que era muito conhecido do pessoal e seguidamente aparecia com novidades. Lá na cidade, parou na casa da mãe de uma neta da sogra do dono do bolicho, que era comadre de um freguês safado pra pagar a conta, que por sinal tava se espichando, se espichando....
       Não estou falando mal dos outros. Peço que me entendam!
      Abrindo um parêntese: a sogra do dono do bolicho vinha ser parenta muito longe do pai do domador.
      Mas por falar em domador, o fazendeiro "Pai de Todos", no último fim de semana de cada mês, carneava uma vaca bem gorda e mais uns capões, comprava vinho puro e fazia uma churrascada para os peões que durava sábado e domingo.
      Abrindo um parêntese: o vinho era comprado de uns italianos muito caprichosos e religiosos, que iam à missa todos os domingos, mesmo a igreja sendo longe de onde moravam. Eram contra parentes do José Garibaldi,(o bépi "estranzero", como diziam) aquele safado que roubou uma moça lá das Santa Catarina que se chamava Anita, tocaia da parteira. Dona Nita como era mais conhecida e já aposentada, que há uns dez anos passados, mais ou menos, atendeu oito mulheres num mesmo dia.
      Falando em religiosos, o padre que celebrava missa lá aonde eles iam, foi o mesmo que batizou o filho mais moço do motorista do ônibus.
      Abrindo um pequeno parêntese: a roupinha do batizado do neném foi comprada do tal vendedor.     
     Mas por falar em vendedor de roupa, na ocasião a vó da criança batizada comprou um macacãozinho cor de rosa, o que mais tarde teve que ser trocado, visto ter vindo um neto.
      Abrindo um parêntese: o namorado da moça foi padrinho, mas não com ela. A madrinha era filha da cozinheira do seu "Pai de Todos", que por sinal era neta de escravos que pertenceram ao bisavô da mãe da comadre da mulher do fazendeiro.
      Mas bueno, a moça das tonturas foi consultar com o doutor, que por sinal foi o mesmo que atendeu a neta da sogra do dono do bolicho, quando a guria se engasgou com uma espinha de peixe. Fizeram o que puderam em casa para destrancar a espinha, mas o causo só foi resolvido mesmo pelo doutor.
      Abrindo um parêntese: por falar em peixe, na véspera da Semana Santa, há uns três anos atrás, mais ou menos, o guri de um dos peões do seu "Pai de Todos" estava pescando e cravou o anzol na própria perna e por sorte, o padre estava visitando o fazendeiro e cortou a fisga, livrando de levar o acidentado para o doutor.
      Ah! Por falar em doutor, a moça foi atendida e voltou para casa com uma caixa de remédio que deveria tomar até passar a crise de labirintite.
      Abrindo mais um parêntese: desta maneira é que um vizinho lá de fora resumia as novidades aos demais moradores.

NO BALANÇO DAS CHINELAS

Já bem na boca da noite,
floreou um tico-tico
e no galpão o Tio Nico,
falou no seu jeito lento:
- Fechem tudo lá pra dentro,
que este canto fora de hora,
é sinal que sem demora,
vai vir um tufão de vento.


A gurizada se olhou,
mostrando certo espanto
e sobre o pelego num banco,
embodocou-se o gato,
parecendo que de fato,
sentiu o pressentimento,
quando o ronco do vento,
boleou a perna no mato.


Tio Nico coçou a barba,
parecendo-se alheio,
assobiou num floreio
e foi espiar na janela,
depois trancou a tramela,
deu uma atiçada no fogo,
sentou-se quieto de novo,
a balançar a chinela.
 
Quando ouço fora de hora,
o canto do tico-tico,
imaginando eu fico,
que ele do seu abrigo,
está proseando comigo,
pra que eu tenha tenência
e acreditar na vivência
e no saber dos mais antigos.

NO TEMPO QUE O TEMPO DAVA TEMPO

      Há muito tempo, um avô falava para o neto sobre aquele tempo em que todos tinham tempo. Mesmo durante as revoluções, achavam tempo para tomar um mate, falar do tempo e dar um tempo para avançar ou recuar.
      Tempo que o fio de bigode era documento. Tempo que fez com que sua melena ficasse branca e rala e ele teve tempo para notar. Tempo que teve tempo para amar a prenda, para fazer muitos filhos, (pois era um tempo em que se podia ter muitos filhos).       Tempo para cuidar dos negócios e ainda tempo para domar os cavalos.
      Assim, aquele avô passou um bom tempo falando com o neto, aproveitando que o neto ainda tinha tempo para ouvir sua prosa relatando como era naquele tempo.
      Passado algum tempo, o tempo levou o avô e depois de um tempo, o neto pediu ao pai para que contasse alguma coisa sobre o tempo em que foi guri, porém a resposta do pai foi de que não dispunha de tempo.
      Com o tempo, o neto teve um filho e o seu tempo não deu tempo para repassar aquelas histórias que há muito tempo seu avô contava sobre o tempo dele.
      Hoje, o filho do neto nada sabe sobre o tempo de seus antepassados e passa o tempo todo reclamando do tempo que o computador demora para lhe dar a resposta.
      O jeito é termos paciência e aguardar nossa hora chegar, pois esta chegará mesmo que não tenhamos tempo.
      Aquele tempo se foi com o tempo.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

A VENDA DO BONIFÁCIO



Há muitos anos conheci,
a venda do Bonifácio.
Aquela que o Tio Anastácio,
se oitavava para um trago,
onde tanto índio vago,
como eu se emborrachava
e só na canha encontrava,
o calor de um afago.

Foi morada temporária,
em algumas noites de pouso,
quando o inverno rigoroso,
encarangava o vivente
e nas tardes de sol quente,
em pleno mês de janeiro,
a venda e o bolicheiro,
tinham de tudo pra gente.

Aquelas quatro paredes,
ouviram muitas histórias,
cantigas e oratórias
e promessas de vinganças.
Ouviram rusgas e lambanças,
mágoa, revolta, lamentos,
raiva e descontentamentos,
de genros chorando a herança.

Era um bolicho comum,
como tantos nesta Pampa.
Me dá um nó na garganta,
me deixando abichornado.
São coisas do meu passado,
que foram com o Tio Anastácio,
a venda do Bonifácio,
entre a ponte e o lajeado!

VELHO E VELHOS

      À beira de um velho caminho, rodeado por velhas figueiras, que esgoelaram velhos cinamomos, lá estava o velho casarão, que era um pouco mais velho do que os velhos que nele moravam.
Nos velhos tempos, velhos amigos vinham de longe, em suas velhas carretas para visitar e ter prosas compridas sobre velhosassuntos.
      Já velhos, os filhos dos velhos escravos ainda faziam companhia aos velhos filhos dos velhos senhores.
Velhos móveis nos cômodos e velhos retratos nas velhas paredes, onde velhas janelas ostentavam velhas cortinas compradas de um velho mascate.
      Hoje, a convite de um velho amigo, realizei um velho sonho de conhecer aquele velho casarão. Aproveitei e fui enquanto ainda não estou tão velho, mas senti que lá tudo sendo velho, me achei novo e se o Patrão Velho permitir, lá voltarei de novo quando ficar mais velho, para depois contar aos mais novos, o meu velho sonho sobre aquele casarão velho.

ENTRE POUSOS E SESTEADAS

Oigalê que frio danado,
nestes tempos de agosto.
Garoa molhando o rosto,
cai trançada lá do céu.
No dia que vai cinzento,
ouço o assobio do vento,
na aba do meu chapéu.

Entrincheirado no poncho,
com o frio não me abalo.
Na guaiaca dou um pealo,
para chegar no bolicho,
vou recompletar a guampa,
dar um calor pra garganta,
sem me entregar para o vício.

‘Tenho no sol um parceiro,
clareando o meu caminho.
Tenho a lua e as estrelas,
prendas que me dão carinho'!

Há tempos que carreteio,
são longas estas jornadas,
entre pousos e sesteadas
pois herdei este destino.
Nesta lida sem fronteiras,
tenho a estrada por bandeira
e o Minuano como hino!

De estâncias em estâncias,
faço as minhas pousadas,
prosseguindo em madrugadas
esta sina de peão.
E se na vida nada é eterno,
quem sabe ao passar invernos,
me veja um dia patrão!

ÚLTIMO PEALO

... pois foi no fundo do campo,
onde a sanga faz divisa,
que o Nico da siá Marfiza,
enforcou-se com um sovéu.
No chão, estava o chapéu,
o lenço e as chinelas,
e a faca de sentinela,
cabo apontando pra o céu.


Teria sido a Candinha,
que lhe negara o estribo?
Enfim, qual fora o motivo,
pra fazer com que o vivente,
desse um pealo de repente,
pra vida trocar de ponta,
como um acerto de conta,
talvez do próprio consciente?


Quando deram a notícia,
me causou certo espanto.
Era um parceiro e tanto,
não esperava tal fato,
que aquele moço gaiato,
serelepe e risonho,
tinha deixado seus sonhos,
pendurados lá no mato!

...DAS CHUVAS

A chuva chegou de manso,
molhando a quincha do rancho,
tirando o pó do capim.
A noite chegou sem lua
e a saudade da xirua
foi se arrinconando em mim.

Pensei encilhar o mate,
pois quando a saudade bate,
tenho ele por parceiro
e meio abichornado,
deixei a cuia de lado
e abracei o travesseiro.

O sono porém não veio
e o candieiro alheio,
oscilava fumacento
e eu no catre solito,
também fumaceava um pito,
com a chuva do amor por dentro!

MATANDO A SAUDADE




Deixo a cidade e vou para o campo,
matar a saudade de um fogo de chão,
do chio da chaleira com água da sanga,
da cuia morena do meu chimarrão.
Deixar a fumaça arder nos meus olhos,
dormir nos pelegos no velho galpão.

Ver a madrugada no canto dos galos,
dizendo pra Dalva que apague o lampião,
que o clarão do dia desperta a sombra,
do mestre da cerca, deitada no chão,
do baio pastando na frente do rancho,
esperando a hora da encilha do peão.


Chegar na mangueira e tomar o apojo,
com cheiro de pasto e de cerração,
olhar a corroíra entrar sorrateira,
num porongo velho que tem no galpão.
Ver o João-de-Barro chamando a parceira,
que venha pra o rancho que fez no moirão.


Ver garças que cruzam bordando o céu,
ouvir quero-queros cantando o refrão,
a grama molhada que encharca o chinelo
e até um espinho cravar no garrão.
Me ver de novo naquele guri,
que um dia chorou ao deixar o seu chão.

Depois volto à lida da cidade grande,
sentindo um aperto no meu coração,
daqui mais uns dias vou pra fora de novo,
as rédeas da ânsia conduzem minha mão.
Enquanto não chega a hora da ida,
reparto a saudade com meu violão!

quarta-feira, 11 de abril de 2012

QUANDO ALGUÉM NOS VISITA

Na sombra do oitão do rancho,
mateava devagarito.
A china no meu costado,
dava mamá pra um piazito,
o outro se encorajava,
pra dar os primeiros passos
e o mais velho pacholeando,
laçava um borrego guaxo.

Um garnisé desasado,
perseguia uma nanica,
na gaiola na parede,
se catava a caturrita.
Juntei cuia e chaleira
e enchi mais um amargo,
e um frasco de canha pura,
num beijo me trouxe um trago.

Vindo nas asas do vento,
já quase no lusco-fusco,
o grito do quero-quero,
deu o alerta pra o custo,
ouvi um bater de cascos,
e um assobiozito floreando,
sem demora um " ôôôh! de casa"
e meu compadre chegando.

Gritei, passe pra diante!
Vai guri e desencilha.
Dei um abraço cinchado
e perguntei da família.
Vai te chegando vivente,
que eu renovo o chimarrão
e gritei pra minha china:
"bota mais água no feijão"!

"Caramelo pro afilhado
e lembranças pra comadre
e o meu rancho nestas horas,
de alegria se invade"

A china e o guri do meio,
se mandam pro galinheiro,
sem demora uma polaca,
estrebucha no terreiro,
o cusco num alarido,
aperta a franga co'as mãos,
e o piá num jeito campeiro, grita:
deixa, deixa, Sultão!

Vamos matando a saudade,
enquanto o tempo passa,
entre um trago e um amargo,
um palheiro faz fumaça,
a lua clareia o céu,
dando a noite mais beleza
e a china sai no terreiro
e diz que a bóia tá na mesa.

Receber uma visita,
nos dá prazer e conforta,
meu rancho não tem tramelas
e não uso trancas nas portas,
vivo alegre e satisfeito,
feliz na minha morada,
esperando as visitas,
eu a china e a gurizada!